terça-feira, fevereiro 05, 2008
domingo, fevereiro 03, 2008
someone might wait
sábado, fevereiro 02, 2008
terça-feira, janeiro 29, 2008
hipotetical 3rd dimension
quarta-feira, janeiro 23, 2008
ternurenhice
.
.
pausa (de semínima)
.
e antes de despedir, um momento de ternura para concretizar um dos princípios proposto no grupo de crianças: nunca se recusa um abraço.
vem logo Sérgio Godinho à cabeça
são dois braços
são dois braços
servem p'ra dar um abraço
assim como quatro braços
servem p'ra dar dois abraços
e assim por aí fora
até que quando for a hora
vão ser tantos os abraços
que não vão chegar os braços
para os abraços
terça-feira, janeiro 15, 2008
a duas senhoras
uma nasceu no meu dia de anos, ainda que quase 100 anos antes, e escreveu
Nenhum olhar, fosse de um ser humano, de uma fera enjaulada ou de um animal de estimação, havia contemplado Mrs. Lanier quando ela não estava melancólica. Ela dedicava-se à melancolia, como os artistas menores às palavras e à tinta e ao mármore.(no Coração de Manteiga, um dos seus contos)
quinta-feira, janeiro 03, 2008
começo o ano com um adeus
Nos teus olhos altamente perigosos
vigora ainda o mais rigoroso amor
a luz dos ombros pura e a sombra
duma angústia já purificada
Não tu não podias ficar presa comigo
à roda em que apodreço
apodrecemos
a esta pata ensanguentada que vacila
quase medita
e avança mugindo pelo túnel
de uma velha dor
Não podias ficar nesta cadeira
onde passo o dia burocrático
o dia-a-dia da miséria
que sobe aos olhos vem às mãos
aos sorrisos
ao amor mal soletrado
à estupidez ao desespero sem boca
ao medo perfilado
à alegria sonâmbula à vírgula maníaca
do modo funcionário de viver
Não podias ficar nesta casa comigo
em trânsito mortal até ao dia sórdido
canino
policial
até ao dia que não vem da promessa
puríssima da madrugada
mas da miséria de uma noite gerada
por um dia igual
Não podias ficar presa comigo
à pequena dor que cada um de nós
traz docemente pela mão
a esta pequena dor à portuguesa
tão mansa quase vegetal
Mas tu não mereces esta cidade não mereces
esta roda de náusea em que giramos
até à idiotia
esta pequena morte
e o seu minucioso e porco ritual
esta nossa razão absurda de ser
Não tu és da cidade aventureira
da cidade onde o amor encontra as suas ruas
e o cemitério ardente
da sua morte
tu és da cidade onde vives por um fio
de puro acaso
onde morres ou vives não de asfixia
mas às mãos de uma aventura de um comércio puro
sem a moeda falsa do bem e do mal
*
Nesta curva tão terna e lancinante
que vai ser que já é o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti
segunda-feira, dezembro 31, 2007
tragicomédia pessoal
quinta-feira, dezembro 27, 2007
malinconia
barthes esqueceu-se deste termo. não é só passado, é presente sem resposta e falta de ar para o futuro em que não se acredita. passado sem gavetas fechadas, presente sem portas abertas. tempo em que toda/os pseudo-sorriem e quem resta não consegue responder a nenhuma expectativa. é preciso descentrar... é preciso dar atenção e não fugir com medo da consequência. é preciso viver de vez em quando e esconder o medo. é preciso viver o que é preciso sem o tomar como obrigação. seria bom viver autenticamente e representar menos. seria bom sentir que somos amado/as e não somente que frustramos.
malinconia frustrante.
um beijo de melhor ano. foi só o pai natal que morreu, não foi?
terça-feira, dezembro 18, 2007
bem-vindo ao mundo, bebé!
domingo, dezembro 16, 2007
segunda-feira, dezembro 10, 2007
todoia

sábado, dezembro 08, 2007
"o pai natal morreu"
foto: D., 5 dezembro 07
terça-feira, novembro 27, 2007
cura
tenho uma mão pequenina
tu tens outra igual à minha
faço mimos, faço festas,
não bato mesmo a ninguém
e a tua,
é assim também?
ho una mano piccolina
hai un'altra uguale alla mia
faccio delle carezze, delle coccolate,
non faccio proprio male
e la tua
lo fa uguale?
poema na sabedoria diária da minha Educadora, traduzione da quel che sono stata capace... un momento troppo, demasiado, bello
segunda-feira, novembro 19, 2007
incoerência original
sobre a incapacidade de reagirmos perante o desaparecimento
(escrevi isto a 4 de abril de 2006. hoje, 19 de novembro de 2007, acabou aquela família. e, no meu vazio, as palavras que me vestem são as mesmas. incoerência e vergonha.)
durante a flecha do tempo que nos permitiu conhecermo-nos em estreita articulação com todos os sistemas, habituamo-nos a construir uma imagem do mundo que vai sendo redefinida conforme as incoerências que aceitemos. indago-me sobre os limites perceptivos de tal conhecimento. e, sobretudo, sobre a capacidade de reacção à percepção da nossa própria incoerência.
a incoerência pode ser multiplamente interpretada. se para mim é incoerente defender o valor da vida e, na prática, promover práticas desumanas ao se defender que certo património cultural deve ser defendido e preservado por ser um legado do desenvolvimento humano, para outr@s pode ser incoerente que eu perca tempo a escrever estas palavras e não vá assegurando uma prática proactiva pela assimilação desse mesmo valor da vida. e, no seu âmago, provavelmente terão razão.
deparo-me agora, novamente, com o desaparecimento de quem promoveu a minha vida, se esforçou pela minha felicidade e cuja recompensa, imaginemos, foi a minha incapacidade de envolvimento sob o medo da transformação da imagem. o afastamento de situações problemáticas em seres que me influenciam desde as iniciais percepções da flecha do tempo, original da minha incoerência.
segunda-feira, novembro 05, 2007
sábado, novembro 03, 2007
nina nana
Berrogüetto-Cantos de Monzo
quel che cantavo ai bambini per addormentarci. quel che canto adesso
segunda-feira, outubro 29, 2007
perplessa
era uma vez um metro do Porto. em plena hora de ponta, como se pode esperar, o metro encontra-se cheio. há, no entanto, quem se afaste de “potenciais focos de problemas”. falo de um pequeno grupo de rapazes, entre os 10 e os 13 anos, com expressões “assustadoras” para os restantes transeuntes. ao verem que alguém escrevia qualquer coisa no telemóvel, começaram a representar um possível assalto subsequente, com instruções explícitas: “e é quando ela acaba de escrever que um de nós estica o braço e…”, e, nesse momento, parou de escrever e tirou o dito acessório tecnológico do alcance deles. ao que se seguiu um monólogo triste: sem subir o tom de voz, e perante a apatia de quem seguia no mesmo metro, indagou os rapazes sobre a justiça de tal acto, o conhecimento que tinham sobre o processo de cada um para ter o que tem, o que será preciso para sobreviver – medo ou acção? – etc. até ao ponto em que incorreu na mágoa mais profunda de lhes dizer: “o que vocês precisam é de mimo”. e um olhar muito triste focou o mesmo chão de todos nós. “desculpe, menina, você é bonita. desculpe. até à próxima.”
era uma vez um bairro social com forte percentagem de residência de emigrantes. por diversas vozes considerado das áreas de maior incidência criminal e violência da cidade. um dos problemas efectivos era a comunicação: eram poucos os que falavam a mesma língua. um dia, a caminho do estágio, perdi-me, portuense em Bologna. perguntei ao primeiro rapaz que encontrei uma saída possível; só percebi “Rússia”, ainda não tinha aprendido a falar, mas pegou no meu braço e levou-me até à paragem de um autocarro que me conduziria ao centro. pouco tempo depois perdi-me na periferia oposta, onde só havia caravanas das comunidades Rom nómadas. uma menina reconheceu-me, por me ter visto a entrar no Jardim-de-Infância, apresentou-me a família e continuou a brincar no jardim em que vivia. apontou o caminho de saída e mandou um beijo ao ar. etc, etc.
eram muitas vezes muitas pessoas com medo de respirar. por terem receio de construir alguma solução colectiva, de procurar respostas humanamente comunitárias, deixam-se cair na apatia individualista e egoísta. apostam no fitness enquanto paz de corpo e no vazio constante enquanto paz de espírito. se calhar, nunca pensaram num conceito de Paz dinâmica. aquela que implica acção, disponibilidade, intencionalidade, aquela que não é a ausência da revolta mas a forma privilegiada de luta. aquela que exige crítica para ser compreendida e desenvolvida.
que cansaço de apáticos conformistas. que medo de ser assim quando, de tão cansada, não acreditar de todo que é possível mudar alguma coisa.
quinta-feira, outubro 25, 2007
frammenti di un discorso amoroso
Vagabundagem. Ainda que todo o amor seja vivido como único e que o sujeito rejeite a ideia de mais tarde o repetir, o apaixonado surpreende por vezes em si uma espécie de difusão do desejo de amor; compreende então que está condenado a errar até à morte, de amor em amor.
Obsceno. Desacreditada pela opinião moderna, a sentimentalidade do amor deve ser assumida pelo sujeito apaixonado como uma forte transgressão que o deixa só e exposto; por uma inversão de valores, é então esta sentimentalidade que torna obsceno o amor.
Saudoso. Imaginando-se morto, o sujeito apaixonado vê continuar a vida do ser amado como se nada tivesse acontecido.
roland, saggio mio... come mai sei riuscito ad indovinarci cosi con tanta sicurezza?
terça-feira, outubro 02, 2007
forse lo so
o meu lugar, do outro lado. nunca teve número, mas deve ser ímpar
quarta-feira, setembro 26, 2007
segunda-feira, setembro 24, 2007
Acordai
Svegliatevi...
Heróica, letra José Gomes Ferreira, música Fernando Lopes Graça
Acordai
acordai
homens que dormis
a embalar a dor
dos silêncios vis
vinde no clamor
das almas viris
arrancar a flor
que dorme na raíz
Acordai
acordai
raios e tufões
que dormis no ar
e nas multidões
vinde incendiar
de astros e canções
as pedras do mar
o mundo e os corações
Acordai
acendei
de almas e de sóis
este mar sem cais
nem luz de faróis
e acordai depois
das lutas finais
os nossos heróis
que dormem nos covais
Acordai!
domingo, setembro 23, 2007
respiro, sufoco
rio douro, zona de sabrosa, vila real
Milk and Honey
Jackson C. Frank (original version)
nello stesso film di Gallo... però questo video non c'entra niente.
c'è un'altra bella versione, di Nick Drake.
sábado, setembro 22, 2007
he said...
come wonder with me love
come wonder with me
away from this sad world
come wonder with me
...
Jeff Alexander in Brown Bunny (a film by Vincent Gallo)
quinta-feira, setembro 20, 2007
"onde perderam a cor nossos sonhos?"
poesia urbana
rua de oliveira monteiro, porto, em setembro de 2005
uns anos antes (dezembro de 2002) tinha pensado em qualquer coisa do género. fiz o que a repetição de dias no hospital, à espera de ar, me permitiu. nesse tempo vivia entre o vermelho e o negro. hoje lembrei-me.
alcuni anni prima (dicembre 2002) avevo pensato in qualcosa simile. ho fatto quello che la ripetizione di giorni passati nell'ospedale, aspettando l'aria, mi ha permesso. in quel tempo vivevo tra il rosso e il nero. oggi mi sono ricordata.
estou assim. sto cosi
que falta de cor, a minha vida
che mancanza di colore, la mia vita.
(bolle. come alcuni dicono - ferve)
quarta-feira, setembro 19, 2007
non mi va di scrivere in italiano

valerie and gotsho embraced, paris, 1999
guido floating, sicily, 1999

dor dor dor
.
não me alcances com ódio, que eu fujo de mim por te querer aqui dentro. em conversas de eu e eu, a minha imbecilidade pede não fujas de mim, pega-me ao colo e logo me agrido, tal como tu o farias. viras as costas e vais-te embora. e vou ter com o nada que me espera, vestido de desespero, única instância com quem faço amor. deito-me doente e serena no vazio e faço de conta que a vida tem sentido. ou a morte. é uma encenação escura, não sei se sem música ou se me tornei surda. e olho o vazio meigo de silêncio (porque o silêncio é atroz se fora do vazio), desmaio e, em modo cobarde, penso se não seria melhor não acordar. sou intrinsecamente imbecil. não te quero compreender porque tenho medo da ideia de que te perdi mal nos olhámos. aquele olhar de tiro.
não há contexto que nos tolere.
não fujas de mim, pega-me ao colo
quinta-feira, setembro 13, 2007
não me apetece escrever em português
terça-feira, setembro 11, 2007
terça-feira, agosto 28, 2007
quarta-feira, agosto 22, 2007
o depois

sexta-feira, agosto 17, 2007
tornata...

parece que sim, ao final de contas já voltei. e talvez volte a ter motivo para escrever aqui. por nada demais... porque parece-me que, aqui, volto ao nada demais.
até já *
a bologna que deixei - la bologna che ho lasciato
(in http://digilander.libero.it/capurromrc/0000bologna.html)
(ce la volete, la versione italiana? ho scritto: sembra di si, alla fin fine sono già tornata. e forse torno ad avere un motivo per scrivere qui. per niente in speciale... perche mi sembra che, qui, torno al niente in speciale. a tra pocco *)
quinta-feira, novembro 09, 2006
moving to bologna BO
viaggio in
http://rebolognya.blogspot.com
vi aspetto!
sábado, outubro 28, 2006
segunda-feira, agosto 28, 2006
@ bologna


grazie, Gu!
Lost in cheap delirium
Searching the neon lights
I move carefully
Sink in the city aquarium
Sing in the key of night
As they're watching me
Take me somewhere we can be alone
Make me somewhere I can call a home
'Cause lately I've been losing my own
Wrapped in silent elegance
Beautifully broken down
As illusions burst
Too late to learn from experience
Too late to wonder how
To finish first
Take me somewhere we can be alone
Make me somewhere I can call a home
'Cause lately I've been losing my own
Won't you take me home ?...
home, Zero7
dura, la tua macanza...
sábado, julho 22, 2006
dia de acção internacional pelo líbano
Saturday July 22, 2006 has been declared "International day of action against Israeli aggression". We call on people all around the world to rise up on that day and be heard.
Please organize an action in your city or area on that day under the banner of the "International day of action against Israeli aggression". If you already have something planned for that day condemning Israel's actions or in support of the people of Palestine and Lebanon, please link it to the international action.
Each city / area is requested to appoint one coordinator (or more) and send us their email addresses to create a coordination list.
Please act now. There is no time to waste. Thank you.
em http://electronicintifada.net/v2/article5135.shtml
não consegui saber disto antes. infelizmente. é preciso fazer alguma coisa... e não sei o quê, nem como. mas precisamos de nos mover para este massacre parar.
por hoje, e a meio de um dia/noite de trabalho, só posso espalhar por aqui esta mensagem. como seres humanos, temos de agir e não continuar massivamente parados e passivos perante tanto ódio estúpido e desprezável
*
por um mundo sem violência
nota - ver também
http://mazenkerblog.blogspot.com
http://laureghorayeb.blogspot.com
...
segunda-feira, julho 17, 2006
paqui, pali...


Meditação transcendental… Deixo o espírito em branco para que as imagens apareçam por si… Bonitas, alegres, positivas… Procuro dentro de mim… No meu eu mais profundo… O meu espírito devia sentir-se liberto… Mas não… E que vejo eu nos confins da minha alma? Negro… Vejo tudo negro… Mas não é caso para desanimar… Ommmmmmmmmm…
Por fim, uma luz ao fundo do túnel! Uma luzinha que emerge do meu reservatório psicótico… Transforma-se numa luz deslumbrante, que avança implacavelmente… Invade-me um calor asfixiante… É um incêndio pavoroso! Oiço tiros, gritos, gemidos de dor… Vejo refugiados que fogem com a roupa que têm no corpo… Corpos decapitados… Aviões e abutres sobrevoando os cadáveres… Para trás, más vibrações! Ao largo, más sensações! Energia positiva, vinde a mim!
OMMMMMMMMMMMM…! Tenho a aura num estado miserável, carago!
idem
domingo, julho 02, 2006
rua do inferno
Paqui Morales, 38 anos, divorciada, sem filhos, caixeira de supermercado, ex-crente, ex-agnóstica e ex quase tudo o que quiserem. Agora posso dizer sem receio de me enganar que desperdicei a minha juventude com o homem inadequado. Mas limitei-me a fazer tudo aquilo para que estava programada. O liceu, os amigos, o namorado, o desemprego, o trabalho, o apartamentozinho, as cortinas do apartamentozinho, os móveis da cozinha do apartamentozinho, o casamento, a viagem de núpcias e o fim da história. A minha vida conjugal foi tão apaixonante como um tratado sobre os marsupiais. Noite após noite, besuntava-me com os cremes da eterna juventude. A seguir vestia a camisa de noite, sempre a mesma, mas cada vez mais curta, e deitava-me à espera que ele se pusesse em cima de mim. Mas ele já tinha adormecido no sofá.
Depois do divórcio tentei desforrar-me arrastando para a minha cama centenas de homens. Ao princípio teve a sua graça, mas um dia descobri que em cima de mim, a bufar contra a minha almofada, estava o mesmo tipo de que me tinha divorciado. Bem, de facto não era exactamente o mesmo, mas resfolegava da mesma maneira, por isso tirei-o de cima de mim e lancei-lhe: “Ó minha besta, não vês que eu não sou uma boneca insuflável? Preciso que falem comigo, que me amem, que me façam sentir que sou gente.” Não demorou nem dois minutos a pôr-se na alheta.
A minha vida tornou-se um calvário: solidão, incomunicação, pizzas congeladas… Até que, numa noite de insónias, encontrei o amor num chat porno. Fazia-se chamar Mosca, mas eu precisava com urgência de um homem diferente, e ao fim e ao cabo tínhamos entrado ambos naquele chat por mero interesse sociológico… “O meu nome é Rosa Branca.” “E como és?” “Culta, sonhadora, inconformista… E tu?” “Alto, bonito, nadador-salvador…” Começámos a falar de música, de cinema, de poesia, e a empatia foi imediata. O Mosca era tão educado, tão atencioso, tão interessante… Partilhámos a nossa torre de marfim, arredados do mundo, a falar de música, de cinema, de poesia, durante meses e meses, mas nunca de sexo. Até que, um belo dia, eu me fartei e disse-lhe: “Amo-te, coração. Preciso de te conhecer em carne e osso, de te tocar, de te morder, de fazer amor contigo desvairadamente.” “Sou casado.” “Não me importa!” “Sou calvo, baixinho e funcionário público.” “E que importância tem isso? Passaste no exame. Só quero saber quando e onde nos podemos encontrar.” “Vivo na Nova Zelândia”. Outra qualquer teria desistido, mas eu não. Eu pedi um empréstimo ao banco, meti-me num avião e aterrei na Nova Zelândia. Esperei durante seis horas com uma rosa branca na mão, para ele me reconhecer. Por fim, cravei os espinhos todos nos dedos. O Mosca nunca apareceu, e eu continuo a pagar o empréstimo.
A Rua do Inferno, de Antonio Onetti
terça-feira, fevereiro 14, 2006
feliz dia
há uma frase de rua: "um único verso seria uma nódoa no meu poema". peço desculpa, não me lembro do nome...
_________
faz de conta que não estamos no papel, mas numa espiral que, mediante o ângulo de que se observe, vai variando as suas tonalidades entre azul-cinzento, púrpura, negro e certos laivos mais quentes. se nos ausentássemos da nossa condição em espiral e, antes, a olhássemos de fora, poderíamos ver como o encarnado encobre os nossos corpos quando as linhas se tocam, ao voarmos. como essa cor advém dos aromas doces que partilhamos, delineados nas contracurvas que nos definem.
dentro do faz de conta temos um toque comum, um olhar comum, um sabor comum, uno na diversidade da pontuação gráfica e melódica que nos habita. sarrabiscas um mundo tão bonito quanto os teus dedos, mais bonito do que os meus olhos possam albergar.
mas são esses olhos que, agora, não te encontram. saímos do faz de conta. constatas que a nuvem da proibição se torna densa e densa e ainda mais densa, e deixamos de nos poder ver. agora choro, porque não te tenho nem posso estar em ti. agora não vejo cores, e esse cinzento que possivelmente nos habita a ambos não é translúcido e não deixa ver mais nada.
dói-me a barriga, os braços, as pernas, os olhos, o nariz, a boca, as mãos, o peito. falta-me cheirar-te, degustar-te, contemplar o belo que em ti reside e que nunca aprendi a definir. falta-me sentir-te e sentir-me em ti.
não sei como escrevo, a tua ausência esvazia-me. sou uma gota estática e não saio das ondas que batem incessantemente contra as rochas, não consigo.
a espiral esgana-me. as imagens consomem-me. a cor abandonou-me. só vejo reticências a esgotar o caminho que poderia seguir. a música chora connosco.
e fico a ver-te passar atrás do teu amor. seremos, talvez, demasiado encarnados para termos valor.
mas daqui a nada irei respirar-te. converso com a minha ausência e digo:
faz de conta... faz de conta que não estamos no papel, mas numa espiral que, mediante o ângulo de que se observe, vai variando as suas tonalidades entre azul-cinzento, púrpura, negro e certos laivos mais quentes. se nos ausentássemos da nossa condição em espiral e, antes, a olhássemos de fora, poderíamos ver como o encarnado encobre os nossos corpos quando as linhas se tocam, ao voarmos. como essa cor advém dos aromas doces que partilhamos, delineados nas contracurvas que nos definem.
dentro do faz de conta temos um toque comum, um olhar comum, um sabor comum, uno na diversidade da pontuação gráfica e melódica que nos habita. sarrabiscas um mundo tão bonito quanto os teus dedos, mais bonito do que os meus olhos possam albergar.
és uma prosa poética. sem ti as ruas não fazem sentido, as pautas não fazem sentido, as páginas não fazem sentido. enche a tua vida de metáforas, eufemismos, ternuras. serei um paradoxo, não peço mais espaço.
um único verso seria uma nódoa no teu poema. não quero sujar-te mais *
sábado, dezembro 31, 2005
na vespera de 2006
"hapiness isn't for tomorrow.
it's not hypothetical,
it starts here and now.
down with violence, egoism
and despair, stop pessimism.
let's pick ourselves up,
nature has given us extraordinary things.
it's not over yet, nothing's decided.
let's take advantage of the wonders
of this continent at last.
inteligently, in our own way,
at our own rythm
like responsible men proud
of their inheritance.
let's build the continent of our own children
and stop taking pity on ourselves.
Africa is also the joy of livings,
optimism, beauty, elegance,
grace, poetry, softness, the sun,
and nature.
let's be happy to be its sons,
and fight to build our happiness."
Salif Keita, Dezembro 2001 (capa do cd Moffou)
que 2006 seja, também através da nossa acção, um ano de beleza, paz e amor. que a luta por uma maior justiça não esmoreça, e que as pessoas sejam cada vez mais humanas, sem medo da imensidão dos seus sonhos e capacidade de mudança...
poemas de amor e utopia para tod@s *
segunda-feira, dezembro 05, 2005
homo bibliotecus complexus
És plen@ de secções livres ou demarcadas, de curvas sublimes da tua inteligência. O pó não te esconde, és pouco velh@ – e por mais que passeie em ti não encontro o regresso do labirinto da tua essência.
O teu perfume não é de mofo, mas sim daquela musicalidade de folhas ante e pospostas que voam pelo vento das tuas janelas, e daquela cor de lombadas encarnadas de todas as carnes possíveis, e daquela rugosidade ténue de que se constitui a tua macieza.
O sol põe-se, e acende-se uma vela para te iluminar em pouca escala. Vestes-te de sombras várias – monstros, princesas, átomos, galáxias – e vives num escuro escondido, esperando dinamicamente que te explore mais uns segundos.
A tua imponência transparece à luz da vela, mais que à luz do sol. A lua mal te alcança, com medo que a explores em demasia... E, com algum receio, expões o arquivo morto e as estantes por organizar, as listagens caóticas, paradoxais à tua estrutura aparente e permanentemente vertical.
É aí que me deito, surpresa pela complexidade que sempre presumi em ti.
É nesse luar que transito, receando que me possuas com a tua imensidão.
É nessa vela que circulo, tentando iluminar os teus recantos.
É nesse arquivo morto que jazo adormecida, esperando ser acordada por alguns dedos macios – sob a forma de monstro, princesa, átomo ou galáxia.
Só varia o tempo
o sono
o estado
a luz disponível
o volume de páginas que me antecedem ou sucedem
o ritmo em que desfolham o livro (os livros?) em que estou inscrita
a ternura com que encaram a minha figura animal dentro da tua imensidão
a forma como me deixas perder em ti, no teu labirinto com saída de emergência imperceptível
Queria encerrar-te, não apresentas condições de segurança
... ou então deixa-me sentar ao colo dessa insegurança tão meiga
Nem tens as dimensões convencionais que permitam catalogar-te tal como às obras que te constituem
... mas deixa-me continuar a desfolhar-te
Nem os teus corredores têm luz suficiente
... mas queria voltar a percorrer esse labirinto, perdendo-me voluntariamente no frio das tuas estantes
Li nos teus manuais e aprendi a desconstituir-me. Já não sou o eu que aí entrou.
Por isso vivo para aprender a não ler, nem ver, nem cheirar, nem ouvir, nem tactear. Para não te reconhecer mais que o palco onde se encena a minha antítese.
Racionalmente designo:
quero viver a sentir.
Sem te tentar possuir
segunda-feira, novembro 07, 2005
há por aí restícios
e esquecemo-nos de nos sentir
o vento deambula pelos teus cabelos
mal lhe tocas
mal me tocas
mal me quer
mal te quer
mas qual mal
qual desventura
qual ciclo interrompido pelas tranças da amargura
há por aí restícios
num fosso de lenha
lenha húmida
arde incandescentemente uma palavra tua
que agora somos palavras
e ao queimar faz muito fumo
muito
muito
até arder os olhos
só por isso choro.
há por aí restícios
no lampião partido
as cinzas baloiçam
ao colo da teia daquela aranha que fugiu dali
e sinto aquele prurido
comichão desconfortável
uma voz aos berros inaudíveis a dizer
“fugi”
foste com a aranha
e eu continuo aqui
há por aí restícios
subsiste aquela raiva
de não ter pernas para acompanhar os teus passos
perdemo-nos nos restos que nunca fomos
crentes num mundo que não conseguimos criar
ocorre-nos correr
gritar
gemer
morder
arranhar
ensurdecer
perder
louvar
derreter
mas por nada nos lembramos da pergunta,
aquela a que queríamos responder
quando demos a mão e partimos pelo tempo
vejo a marca dos teus passos
mas não sei para onde foste
há por aí restícios
pico-me numa rosa seca
o pico de tão seco não infecta
só arranha
arde sem doer demais
não é como a aranha que fugiu
e sou acusada de crime capital
por metáfora constante
em mim não há recurso à complexidade do objectivo
a polícia persegue-me
tentam sufocar-me os sonhos
forças repressoras do poder dominante
sem aparente mal
tiram-me a almofada
e a arma
arrancam desumanamente o imaginário
que injecto abusivamente nas veias
apelidam-me de contrabandista
ilegal
a sorrir, em estado tóxico
fora da lei do mercado
tento amar
há por aí restícios
feitos pólvora nas mãos do poder.
sofrer é censurado
voar é censurado
amar é censurado
há por aí restícios
e ao vê-los dou por mim a beijar a tua imagem
a mesma em que adormeci, bem enroscada
na qual não havia noite fria ou ladrões maus
vou com o vento
em lugar das cinzas
e tento ser censurada ao nível máximo.
é para isso que prevaleço
só por isso não padeço
mergulho nos restícios
e atiro-me dos precipícios
até que a censura me engula.
há por aí restícios
com o vento
a minha mão trémula
o meu corpo sonolento.
até que a censura me engula
segunda-feira, outubro 31, 2005
apelando à paz

a paz voa e pousa, é livre *
EU ESCOLHI A PAZ ! MY CHOICE IS PEACE ALL OVER THE WORLD!
PAZ -PEACE - PACO- PACE- PAIX- SHALOM- SALAAM- SHANTY- - 평화 - Мир - 平和 - Ειρήνη - 和平 -SELAM VREDE- PAKE - HETEP- RAHU - ASHTE - IRINI - HEIWA - SULH - MIR
PHYONGH'WA - EMIREMBE - PACI - FRED - SULA - POKOJ - PASCH - MIERS- UKUTHULA
CopY/Paste and put in your site/blog.Thank You.
quarta-feira, outubro 19, 2005
pauta quebrada
Aquele velho ritual de prender um bocadinho de vento na mão
aquele vento que não se prende
que passa entre as folhas
e nos toca docemente
doce frio
Aquele doce quente de olhar o céu
aquele céu com nuvens
e das nuvens fazer cavalos
peixinhos que se beijam no mar azul celeste
bonecos que perdem as pernas pelo caminho
mas que voam
e vão abraçar-se aos bichinhos fofos
imperceptíveis aos olhares frios
Ode à liberdade de visão
hino ao poder de criação
Sermos deusæs
não para dirigir orquestras
mas para inventar novas figuras musicais
Vaguear pelo imenso
na vaga incerteza das coisas dadas
e com aquela infantilidade reprimida
soltar gargalhadas, fazer cócegas,
tocar o limiar da loucura
Deixar formas, criar laços
com o vasto aroma da liberdade
pintar sonhos
doá-los aos cantos do infinito
Cantar povos e lendas e amores
e recolher a apara do lápis
para que outr@s se enamorem
e se beijem
e nos cantem outros povos e lendas e amores
Sorrir com doçura de criança
ou amar sem pretensão de resposta
ou correr pelos campos brancos de pombas brancas
Imitar uma abelha
uma margarida
um pôr-do-sol
Ronronar num colo fofo
fazer cafuné à lua
tomá-la na ponta dos dedos e jogar berlinde
E aí abandonamos o medo.
O segredo é molhar os olhos
para que jamais percam o seu brilho
e acender o rastilho do sol
para que nos sirva de cobertor.
O resto é amor.
domingo, outubro 16, 2005
um reflexo do que me fazes ser

um reflexo do que sou
Há momentos em que não entendemos o silêncio. Temos esse direito. Aqueles pequenos sons que nos passam entre os dedos vão fluindo melancolicamente através do tempo. Não são cães, nem carros, nem vozes, nem folhas de árvores – basicamente porque não nos apercebemos, porque focamos a objectiva para o não-ser que existe no meio de tudo.
Depois lembramo-nos do nada e até nos apetece viver lá. Porque no nada flutuamos como os sons, não há corpo que se nos sobreponha, não há ilusão que nos fira ou espírito que nos corrompa. Somos, simplesmente.
Mas o nada parece tão vazio, tão desprovido de tudo… De que adianta alhearmo-nos na sombra da noite, debruçad@s na janela do quarto, a ouvir o vento passar? Não nos alimenta, nem nos faz sentir vivos ou úteis… E o tempo flui, ao seu ritmo, sem nos tomar por notas ou pausas musicais.
Há tanta raiva subjacente à calma que aparentamos… “tanto que dizer… e tanto silêncio…”
Queres que te conte uma história? Que te ponha um “Era uma vez…” a meio do discurso, mesmo sabendo nós que esses vastos mundos hipotéticos ou condicionais ainda nos vão doer mais que a visão do vazio?...
Não te deixo. Seria demasiado fácil e contundente para as expectativas do mundo.
“Amar es el empieze de la palabra AMARGURA”
… e sinto tanta raiva… daquelas que estão entranhadas na pele e na língua, e na retina dos olhos, e no sal das lágrimas. Daquelas que escondo, camuflada por sorrisos conscientes do seu fundo impróprio. Como se fosse um beijo interrompido por um abrupto silêncio, incomodativo, com mau sabor, de uma agressividade latente sem escrúpulos ou limites…
Mas é assim que te amo. Sem escrúpulos ou limites, de forma interrompida, silenciosa, incomodativa, agressiva e com o sabor mais agreste de que a natureza me poderia cobrir.
Tens o espaço e o tempo, não tos roubo. Volto ao vazio, à amargura solitária de quem ama mas não te sente, te procura e te encontra longe.
O teu corpo tem a forma de outros braços, não dos meus. O meu corpo é permanentemente amorfo, qual estabilidade aparente…
O sol foi-se embora. Vai nanar, meu amor… Cobre-te de lua e de estrelas, noite dentro. Fico de longe a cantar-te o silêncio, a dor cobre-me e tira-me o frio, a raiva aquece-me as mãos. Caminharei até os pés aquecerem, sangrados, à procura da tua imagem algures no sono.
Estou demasiado nua, desculpa-me a ousadia… Não quero que me toques, seria ultrajante. As palavras escorrem pelo meu corpo como gotículas de suor, e permaneço fria. Os sonhos palpitam a uma velocidade estonteante, fazendo com que o meu peito não caiba nas suas próprias dimensões. Os braços alongam-se e vão estreitando até deixarem que os dedos toquem o nada, paralelos às contracurvas do meu corpo… Pés pequenos, doridos, em ferida. Pernas flácidas, curtas demais para a distância que nos separa.
Que corpo insuficiente para ocupar o teu espaço…
Mas esta sou eu, nua e crua, alojada no vazio dos olhos por que passamos.
Dou-te os meus olhos, têm palavras mais puras que os meus dedos.
… Não os queres ver? Pena…
Mas deixa lá, não faz mal. Conformei-me na melancolia das coisas simples, das músicas feitas, das palavras previsíveis, dos olhos fechados.
Vamos dançar, o mundo é nosso e somos pequenin@s! Que a alegria é irmã da melancolia…
Um beijo no meio do sempre*
sábado, outubro 08, 2005
monólogo de uma actriz enquanto se maquilha

Vou fazer o papel de uma bêbeda
Que vende os filhos
Em Paris, no tempo da Comuna.
Tenho apenas cinco réplicas.
E preciso de me deslocar, de subir a rua.
Caminharei como gente livre
Gente que só o álcool
Quis libertar e voltar-me-ei
Como o bêbedo que receia
Ser perseguido. Voltar-me-ei
Para o público.
Analisei as minhas cinco réplicas como os documentos
Que se lavam com ácido para descobrir sob os caracteres visíveis
Outros possíveis caracteres.
Pronunciarei cada réplica
Como a melhor acusação
Contra mim e contra todos os que me olham.
Se eu não reflectisse maquilhar-me-ia simplesmente
Como uma velha beberrona
Doente e decadente.
Mas vou entrar em cena
Como uma bela mulher que guarda a marca da destruição
Na pálida pele outrora macia e agora cheia de rugas
Outrora atraente e agora repelida
Para que ao vê-la cada um se interrogue: quem
Fez isto?
Bertolt Brecht
sexta-feira, setembro 30, 2005
tempo
Estás pres@ no limiar da loucura
os teus olhos tecem pautas
subscritas em leituras imperceptíveis
quais amarguras
quais feitos incríveis
quais caudas
ou braços
ou pernas
quais traços
imperceptíveis como tu.
O passado é uma emboscada
e não há futuro de mão beijada
não há beijo sem golpe
não há melodia sem voz
e o presente...
somos nós.
Houve tempo
há tempo
lembras-te daquele suspiro
e daquele arrepio
E agora, frio
e daqui a pouco, novo arrepio
Ainda não aprendeste a ler
não consegues ouvir o calor
Olha! Uma flor...
tem cor de arco-íris.
Sussurra-te docemente
até te aproximares
sente-a, não a arranques.
Entre vozes estanques,
silêncio dolente
imensidão inatingível
sente o ininteligível...
Dói. Aperta.
Mas ainda há uma flor.
Pres@ no limiar da loucura,
ainda és feit@ de amor.
O passado é uma emboscada
e o presente azeda.
Que queda
do infinito...
Perdidos no imenso,
tão sós,
agora não há tempo...
Somos nós.
quarta-feira, setembro 14, 2005
benvindos à quimera do ogre
algures na travessa de cedofeita foi escrito na parede: "mas que bem laborais para a quimera do ogre!" ...com quanta razão...
eis o meu "pequeno" grito de indignação
Escorrem-me orações pelos braços
quais lágrimas azedas
quais crenças perdidas
em traços, nos meus braços,
labaredas
no fogo da razão, aos pedaços
como que existências irreais, desmedidas
Escorrem-me dos braços ao peito
no peito uma tontura
onde está a ternura?
no peito uma tontura,
um abraço perdido no tempo
toma o ódio como sustento
e suspira, escorrega
manchas vermelhas na vitrine
ecrã gigante da vida
perdida
desmedida
odiada e odiável
corpo ou espírito, nada moldável
Escorrem-me do peito para a cintura
onde está a ternura?
escorrem-me do peito para a cintura
em curvas e contracurvas quebradas,
acentuadas perseguições
cegas,
visões tristes, desenxabidas
de quem dispensa mais vidas
Sem delongas,
corpo e espírito em tortura
onde está a ternura?
corpo e espírito em tortura
suave tortura
corrosiva
fricativa
tortura mole, prolongada
ser morto servindo de espada
a batalhas ascendidas
corrosivas, fricativas
batalhas em nome código
só ódio
só ódio
batalhas em nome código
guerras sem nome próprio
olhos escondidos nas sombras
nos escombros
um grito abafado
sufocado por um pano podre
benvindos à quimera do ogre
dor sem fundo,
sem luta.
E uma nota solta, perdida
desmedida
adorável
incomensurável
te procura
onde está a ternura?
te procura
no mercado, na praça,
no convento das orações,
no campo, no rio,
no mar, na floresta,
na rua, na giesta
soa uma sirene
convulsões
tudo corre até ao pódio
só ódio
só ódio
tudo corre até ao pódio
onde jaz a alma, a tua vida
incumprida
desmedida
perdida
os teus olhos aí perdidos
brancos, deslavados
testemunhas coniventes
da tua destruição
não não
não não
e eu amo-te tanto…
amo a tua candura
onde está a ternura?
amo a tua candura
és branco de morto
branco de vazio
morto vazio e nada
só corpo
mais nada
grita, chora,
és espada
de uma batalha ascendida
perdida
desmedida
batalha errante contra a vida
exército de mortos operantes
corpos errantes
todos no pódio
só ódio
só ódio
belos de candura
onde está a ternura?
a vida a fugir-nos da mão
não não
não não
NÃO!
Amo-te com amor… não com ódio
desce comigo do pódio
vem para o chão ser humano
dá-me calor
dou-te ternura
doçura
amor
terça-feira, agosto 23, 2005
... e depois?...
há espaços que concentram tanta vida que, depois, fico sem saber onde viver. (ou então ainda não me habituei bem à ideia de ser nómada)
sem dúvida que este foi um deles, no qual vivi com pessoas tão lindas e que me tocaram tanto que agora ando perdida por não as ter aqui ao pé de mim, no gozo ou com mimos ou em partilha de mau estar ou seja como for. XUNGA distância, mas imprescindível para o valor que adquirem estes campos e toda a dinâmica que nos proporcionam.
adoro-vos, minhas baratinhas voadoras! :)
continuem a voar cada vez mais alto, mas não fujam, por favor...

... and it's never all, folks! ;) * * *
domingo, junho 19, 2005
está quente cá dentro.
custa acreditar que de repente ficaste fri@. que te foste embora. que já não te vou poder dizer muitas coisas que nem sabia que faltava contar-te, porque fugiste antes de me aperceber que o tempo existia... custa perceber que o tempo come.
se no teu sorriso pudessem caber cinquenta sóis, concerteza os transportarias contigo. é uma luz que te faz parte, gratuita... e falo no presente quando já cá não estás para me ver ou ler as minhas palavras. já não te podes agarrar ao meu braço a chorar para não te deixar sozinh@ no escuro, porque também tens medo, como eu, nem ao meu pescoço com um mimo despreocupado porque este tempo comilão não chegou para acabar com aquilo que une as pessoas desde sempre, o afecto que nos tínhamos, a amizade subjacente aos gritos e aos silêncios, que assim de repente se converte numa folha pequenina que me entregam “para não chorar, porque sou amiga, e só me queria ver feliz”.
é muito estranho perceber que não volto a sentir-te aqui, sem alternativa. ou então é tão natural que assusta... e agora, vê: a quantas pessoas me falta dizer que amo, que não quero perder nunca – mesmo sem nunca as ter – porque pintam a minha vida com aquelas cores que eu não tenho nem nunca terei? quantos abraços me falta dar até o tempo me comer a mim?
merecias muito mais, que todos os que agora choram tivessem estado ao teu lado quando eras tu a chorar – ou a rir... que nunca ninguém tivesse desistido de ti porque não eras fácil, porque eras grande e lind@ mas de uma forma muito tua. mas vais ser sempre lind@ aos olhos de quem, por instantes ou desde sempre, te sentiu...
um abraço ao longe, no vazio.
já não choro, não. há muitos sorrisos para dar, vou tentar aprender como sorrias tu (que tantas vezes o fazias) e passar um pouco do teu testemunho. depois pode ser que encontre o meu...
e há muitas pessoas para amar, não há? :)
amo-vos* * *
domingo, maio 22, 2005
segunda-feira, maio 02, 2005
o que sou esvai-se em traços.

esta era a minha parede lisa. a linearidade foi-lhe sugada por mim. agora sou eu que não sou nada, recta, de cor fria e uniforme. há tanto tempo que não tenho mais palavras ou traços... há muito tempo que não sei sonhar.
mas lá vou explorando o nada, o preto e o branco, a pose e a curva, num rodopio demasiado meu para que alguém o percepcione.
as árvores já têm folhas e das plantas já nascem flores. falta uma música e um gesto, um abraço daqueles que não me lembro ou uma mão a tocar-me a cara. mas de que adianta a falta que me faz o que não tenho?... não há e pronto.
o mostrinho da minha parede é meigo. só tem cabeça, não tem corpo. vive só de vez em quando, se alguém sonhar com ele. não tem cabelo, e é pálido. nunca lhe dei cor. eu nunca dou cor. mas tem uns olhos marcados e fundos, vê por mim aquilo que eu não vejo nem sinto. "sente o que eu não sinto em mim". é docemente irreal.
a realidade é azeda. amarga. ácida. não tem narizes pequeninos nem sonhos possíveis, orelhas grandes ternurentas ou doçuras no olhar.
o resto, é sonho*
segunda-feira, março 28, 2005
"Os meus olhos são uns olhos...

... E é com esses olhos uns
que eu vejo no mundo escolhos
onde outros, com outros olhos,
não vêem escolhos nenhuns.
Quem diz escolhos diz flores.
De tudo o mesmo se diz.
Onde uns vêem luto e dores
uns outros descobrem cores
do mais formoso matiz.
Nas ruas ou nas estradas
onde passa tanta gente,
uns vêem pedras pisadas,
mas outros, gnomos e fadas
num halo resplandecente.
Inútil seguir vizinhos,
querer ser depois ou ser antes.
Cada um é seus caminhos.
Onde Sancho vê moinhos
D. Quixote vê gigantes.
Vê moinhos? São moinhos.
Vê gigantes? São gigantes."
Impressão digital
António Gedeão
terça-feira, março 01, 2005
quem sou eu

se não tenho olhos e os meus lábios pararam? se não te posso sussurrar que te amo ou te detesto ou que não és nada para mim? quem sou eu se me fecho em vez de te tocar?... é isso, ninguém. fico cinzenta de esperar pelas palavras que não ouço. e não vejo, porque também não há coisas para ver. nem preta nem branca, mantenho a mente tão cinza como aquela cinza que vou ser um dia quando cair à relva ou à água, depois de ser mais fogo. um dia vou ser uma luz que voa na terra do nada, onde, como não há nada, a solidão não existe. mas entretanto preciso de me tapar porque a temperatura está negativa e eu congelei os dedos por tocar o ar a ver se te encontrava... como não te vi, também congelei o resto do corpo e, na verdade, sou a estátua que vês, imóvel, desviva, feita fóssil para colecção. que é o mundo mais que uma colecção de corpos?...
...um beijo colar-te-ia, sem me derreter. já não conseguirias chegar aqui, o caminho enrolou-se assim de repente, deu um nó e deixou de existir.
toma, é para ti...
segunda-feira, fevereiro 14, 2005
la fianna
sexta-feira, fevereiro 11, 2005
não quero,
é tudo muito interessante
faz as pessoas altas
os olhos semicerrados alcançam tão longe
mas os braços e as mãos não.
aprendemos a viver a solidão
aquele ficar molhado com a chuva sem que ninguém nos enxugue a testa
chegar a casa e ver sempre os mesmos quadros tortos
quartos vazios, arrumados ou não
corredores asfixiantes
corpos exangues
ausentes.
não consigo parar de chorar e de debitar palavras estúpidas, quase tanto como eu, apetece-me mandar tudo pela janela e atirar-me depois, sentir o vento, a ver se ele é mais macio que as palavras e que aquilo que se pensa, ver se é mais frio que eu, se também chora, e depois procurar flores e cheirá-las e pensar que o perfume é a vida e que por isso ela é bonita, não ver números, estou farta de ser números, ser flores folhas ramos troncos raízes terra bichos água luz, ser qualquer coisa que não algarismos ou algoritmos, gostava tanto de ser pessoa pessoa e não pessoa fantoche, estou a crescer para onde se não caibo aqui?, vou deslizando de dentes no chão e olhos vermelhos até não me encontrar mais, perder-me suficientemente bem perdida para não me lembrar que alguém se possa encontrar,
os olhos acabarão por pesar tanto que fecham, cansados, e me adormecem numa falsa ternura de uma ausência de ti.
terça-feira, janeiro 25, 2005
música flui em caminhos dispersos
AI, falta mas tenho demais! que sofreguidão de coisas, de estados, de tempo!
a música continua, está mais soturna. ou melancólica? sou eu que a ouço...
não há mal, os símbolos sentem por nós... sim... podemos dar-nos ao prazer do não sentir... pode ser que encontremos a paz nos turbilhões energéticos aqui pelo nosso meio. se não houver paz? há música...
perdi-me
não, não me encontres
sexta-feira, janeiro 14, 2005
crescemos e falta-nos carinho
e depois se choramos somos uns abaixo de nada, porque nada já nós somos. se nos atrevemos a sentir e mostrar que sentimos é porque somos de outro mundo que só tem de ser eliminado. se lutamos por algo em que acreditamos somos utópicos à escala universal e resta-nos uma morte mais dura e penosa por não nos conformarmos.
mas precisamos e sufocamos sem o que alimenta o conformismo, o corpo está no mesmo chão. e sem "aquilo que alimenta o coração" não temos mãos que aguentem a dor. esprememo-nos mas dói cada vez mais. pica muito, desfaz, quase destrói!
criemos a ternura, não desistamos dela! sejamos activist@s de amor, inclusivos da atenção, companheir@s a flutuar num espaço cheio mas tão vazio!...
am@r sem dor nem fim
um abraço muito apertado para quem quer e precisa dele
deixa-me dar-te um bocadinho de mim
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domingo, janeiro 09, 2005
falta sempre uma parte do que se é.
mas há uma paz que quer sair. uma voz que quer cantar em coro, fugindo do boneco de cera e agarrando-se até às flores mais pequenininhas.
uma entidade estrangulada na cor que não se define. escorrega pelo pescoço até ao nada, onde se afunda…
We were so close, there was no room
We bled inside each others wounds
We all had caught the same disease
And we all sang the songs of peace
Some came to sing, some came to pray
Some came to keep the dark away
Melanie Safka, Lay Down
Don’t question why she needs to be so free
She’ll tell you it’s the only way to be
She just can’t be chained
To a life where nothing’s gained
And nothing’s lost
At such a cost
There’s no time to lose, I heard her say
Catch your dreams before they slip away
Dying all the time
Lose your dreams
And you will lose your mind.
Ain’t life unkind?
Rolling Stones, Ruby Tuesday
… e adormece.
vem adormecer no meu colo, no meu peito.
no meu eu, que não conheces e é tão teu*
segunda-feira, janeiro 03, 2005
no buraco da parede
dizia que lá ao fundo, onde os olhos queimam por não conseguirem albergar, há uma fonte com musgo. para quê, perguntas? pode ser para nada. nós já temos tantas coisas… tantas que levam ao desprezo de todas. é como com as pessoas, que também deixam de ser importantes porque são muitas. assim, se lá fores e escorregares, como aquilo não é para nada, ficas verde porque sim. só que, quando eu te vir verde, sei que isso aconteceu porque sim, mas foste lá porque sentiste o meu recado como não me sentes a mim.
se eu fico triste, não interessa. faz de conta que não sinto. se calhar nem sinto mesmo…
agarraste-me e sacudiste-me com toda a força, até ficar tonta e quase inconsciente. libertaste o que eu não sabia ter trancado dentro de mim, e deste-me parte da tua liberdade, também. até que ficámos os dois presos – eu segurava a tua vida e tu a minha morte. largaste-me já débil, mal conseguindo trepar a um novo buraco de parede. deixaste cair a faca que trazias na mão para me tirares a pele, teu sustento. as balas que tilintavam no bolso da tua camisa como que te trespassavam, justificando as lágrimas que te caíam. para quê matar-me? afinal era só mais um bichinho, e o sol iluminava o meu corpo nu para que tivesses a noção de que estava mesmo ali… puseste-me junto a um buraco de uma árvore e foste embora, eu a ver-te.
quando escorregares, pode ser que me sintas. ficas verde e voltas à parede, mas ao meu nível, ao meu lado, a dar-me o mimo que te quero dar a ti.
teimamos em fazer guerra quando ainda há tanto amor por fazer…











