terça-feira, agosto 23, 2005

... e depois?...

mais um campo de férias... que saudades tinha, com quantas mais fiquei!

há espaços que concentram tanta vida que, depois, fico sem saber onde viver. (ou então ainda não me habituei bem à ideia de ser nómada)
sem dúvida que este foi um deles, no qual vivi com pessoas tão lindas e que me tocaram tanto que agora ando perdida por não as ter aqui ao pé de mim, no gozo ou com mimos ou em partilha de mau estar ou seja como for. XUNGA distância, mas imprescindível para o valor que adquirem estes campos e toda a dinâmica que nos proporcionam.

adoro-vos, minhas baratinhas voadoras! :)

continuem a voar cada vez mais alto, mas não fujam, por favor...


... and it's never all, folks! ;) * * *

domingo, junho 19, 2005

e se eu agora dissesse que te amava? falta sempre dizer tanta coisa...

está quente cá dentro.

custa acreditar que de repente ficaste fri@. que te foste embora. que já não te vou poder dizer muitas coisas que nem sabia que faltava contar-te, porque fugiste antes de me aperceber que o tempo existia... custa perceber que o tempo come.

se no teu sorriso pudessem caber cinquenta sóis, concerteza os transportarias contigo. é uma luz que te faz parte, gratuita... e falo no presente quando já cá não estás para me ver ou ler as minhas palavras. já não te podes agarrar ao meu braço a chorar para não te deixar sozinh@ no escuro, porque também tens medo, como eu, nem ao meu pescoço com um mimo despreocupado porque este tempo comilão não chegou para acabar com aquilo que une as pessoas desde sempre, o afecto que nos tínhamos, a amizade subjacente aos gritos e aos silêncios, que assim de repente se converte numa folha pequenina que me entregam “para não chorar, porque sou amiga, e só me queria ver feliz”.

é muito estranho perceber que não volto a sentir-te aqui, sem alternativa. ou então é tão natural que assusta... e agora, vê: a quantas pessoas me falta dizer que amo, que não quero perder nunca – mesmo sem nunca as ter – porque pintam a minha vida com aquelas cores que eu não tenho nem nunca terei? quantos abraços me falta dar até o tempo me comer a mim?

merecias muito mais, que todos os que agora choram tivessem estado ao teu lado quando eras tu a chorar – ou a rir... que nunca ninguém tivesse desistido de ti porque não eras fácil, porque eras grande e lind@ mas de uma forma muito tua. mas vais ser sempre lind@ aos olhos de quem, por instantes ou desde sempre, te sentiu...


um abraço ao longe, no vazio.



já não choro, não. há muitos sorrisos para dar, vou tentar aprender como sorrias tu (que tantas vezes o fazias) e passar um pouco do teu testemunho. depois pode ser que encontre o meu...

e há muitas pessoas para amar, não há? :)



amo-vos* * *

segunda-feira, maio 02, 2005

o que sou esvai-se em traços.




esta era a minha parede lisa. a linearidade foi-lhe sugada por mim. agora sou eu que não sou nada, recta, de cor fria e uniforme. há tanto tempo que não tenho mais palavras ou traços... há muito tempo que não sei sonhar.
mas lá vou explorando o nada, o preto e o branco, a pose e a curva, num rodopio demasiado meu para que alguém o percepcione.


as árvores já têm folhas e das plantas já nascem flores. falta uma música e um gesto, um abraço daqueles que não me lembro ou uma mão a tocar-me a cara. mas de que adianta a falta que me faz o que não tenho?... não há e pronto.



o mostrinho da minha parede é meigo. só tem cabeça, não tem corpo. vive só de vez em quando, se alguém sonhar com ele. não tem cabelo, e é pálido. nunca lhe dei cor. eu nunca dou cor. mas tem uns olhos marcados e fundos, vê por mim aquilo que eu não vejo nem sinto. "sente o que eu não sinto em mim". é docemente irreal.

a realidade é azeda. amarga. ácida. não tem narizes pequeninos nem sonhos possíveis, orelhas grandes ternurentas ou doçuras no olhar.

o resto, é sonho*

segunda-feira, março 28, 2005

"Os meus olhos são uns olhos...




... E é com esses olhos uns
que eu vejo no mundo escolhos
onde outros, com outros olhos,
não vêem escolhos nenhuns.

Quem diz escolhos diz flores.
De tudo o mesmo se diz.
Onde uns vêem luto e dores
uns outros descobrem cores
do mais formoso matiz.

Nas ruas ou nas estradas
onde passa tanta gente,
uns vêem pedras pisadas,
mas outros, gnomos e fadas
num halo resplandecente.

Inútil seguir vizinhos,
querer ser depois ou ser antes.
Cada um é seus caminhos.
Onde Sancho vê moinhos
D. Quixote vê gigantes.

Vê moinhos? São moinhos.
Vê gigantes? São gigantes."



Impressão digital

António Gedeão

terça-feira, março 01, 2005

quem sou eu




se não tenho olhos e os meus lábios pararam? se não te posso sussurrar que te amo ou te detesto ou que não és nada para mim? quem sou eu se me fecho em vez de te tocar?... é isso, ninguém. fico cinzenta de esperar pelas palavras que não ouço. e não vejo, porque também não há coisas para ver. nem preta nem branca, mantenho a mente tão cinza como aquela cinza que vou ser um dia quando cair à relva ou à água, depois de ser mais fogo. um dia vou ser uma luz que voa na terra do nada, onde, como não há nada, a solidão não existe. mas entretanto preciso de me tapar porque a temperatura está negativa e eu congelei os dedos por tocar o ar a ver se te encontrava... como não te vi, também congelei o resto do corpo e, na verdade, sou a estátua que vês, imóvel, desviva, feita fóssil para colecção. que é o mundo mais que uma colecção de corpos?...


...um beijo colar-te-ia, sem me derreter. já não conseguirias chegar aqui, o caminho enrolou-se assim de repente, deu um nó e deixou de existir.

toma, é para ti...

segunda-feira, fevereiro 14, 2005

la fianna




há imagens suficientes para que nem sempre se tenha de dizer alguma coisa, mas vivemos aprisionados no mundo das palavras.
o fogo das cores e o calor que barcelona me deu...

sexta-feira, fevereiro 11, 2005

não quero,

estou aqui mas não quero.
é tudo muito interessante
faz as pessoas altas
os olhos semicerrados alcançam tão longe

mas os braços e as mãos não.

aprendemos a viver a solidão
aquele ficar molhado com a chuva sem que ninguém nos enxugue a testa
chegar a casa e ver sempre os mesmos quadros tortos
quartos vazios, arrumados ou não
corredores asfixiantes
corpos exangues
ausentes.




não consigo parar de chorar e de debitar palavras estúpidas, quase tanto como eu, apetece-me mandar tudo pela janela e atirar-me depois, sentir o vento, a ver se ele é mais macio que as palavras e que aquilo que se pensa, ver se é mais frio que eu, se também chora, e depois procurar flores e cheirá-las e pensar que o perfume é a vida e que por isso ela é bonita, não ver números, estou farta de ser números, ser flores folhas ramos troncos raízes terra bichos água luz, ser qualquer coisa que não algarismos ou algoritmos, gostava tanto de ser pessoa pessoa e não pessoa fantoche, estou a crescer para onde se não caibo aqui?, vou deslizando de dentes no chão e olhos vermelhos até não me encontrar mais, perder-me suficientemente bem perdida para não me lembrar que alguém se possa encontrar,

os olhos acabarão por pesar tanto que fecham, cansados, e me adormecem numa falsa ternura de uma ausência de ti.





terça-feira, janeiro 25, 2005

música flui em caminhos dispersos

como se de uma valsa se tratasse, rodopiamos junt@s na pista fictícia. tocaste-me carinhosamente na borboleta que trago ao peito, "é linda para ti" apeteceu-me dizer-te, mas talvez o teu sorriso tenha ouvido isso antes mesmo de eu o pensar. e continuámos a rodopiar, mas afastad@s, cada um@ para o seu espaço no espaço que tínhamos. o que faço agora? que caminho é este? estamos tod@s dentro de quatro paredes e sobra tanto, mas falta tanto, a cortina preta tapa tanto, só se vê um pé, então e o passo, e o caminho, e o tudo?!...

AI, falta mas tenho demais! que sofreguidão de coisas, de estados, de tempo!

a música continua, está mais soturna. ou melancólica? sou eu que a ouço...

não há mal, os símbolos sentem por nós... sim... podemos dar-nos ao prazer do não sentir... pode ser que encontremos a paz nos turbilhões energéticos aqui pelo nosso meio. se não houver paz? há música...




perdi-me







não, não me encontres




sexta-feira, janeiro 14, 2005

crescemos e falta-nos carinho

falta mimo com pão, não tanto queijo com pão. temos a mais de preocupação e de dívida, estamos em permanente falta para com @ tod@. matamos sem sequer perguntarmos para quê, morremos sem percebermos porquê, e o "quê" vai passeando por aí, cada vez maior, mais bruto e feio.
e depois se choramos somos uns abaixo de nada, porque nada já nós somos. se nos atrevemos a sentir e mostrar que sentimos é porque somos de outro mundo que só tem de ser eliminado. se lutamos por algo em que acreditamos somos utópicos à escala universal e resta-nos uma morte mais dura e penosa por não nos conformarmos.

mas precisamos e sufocamos sem o que alimenta o conformismo, o corpo está no mesmo chão. e sem "aquilo que alimenta o coração" não temos mãos que aguentem a dor. esprememo-nos mas dói cada vez mais. pica muito, desfaz, quase destrói!

criemos a ternura, não desistamos dela! sejamos activist@s de amor, inclusivos da atenção, companheir@s a flutuar num espaço cheio mas tão vazio!...


am@r sem dor nem fim

um abraço muito apertado para quem quer e precisa dele
deixa-me dar-te um bocadinho de mim

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domingo, janeiro 09, 2005

falta sempre uma parte do que se é.

os lábios escondem os olhos, o pescoço esconde o peito, o sorriso esboçado esconde a mágoa desbotada.

mas há uma paz que quer sair. uma voz que quer cantar em coro, fugindo do boneco de cera e agarrando-se até às flores mais pequenininhas.

uma entidade estrangulada na cor que não se define. escorrega pelo pescoço até ao nada, onde se afunda…




We were so close, there was no room
We bled inside each others wounds
We all had caught the same disease
And we all sang the songs of peace

Some came to sing, some came to pray
Some came to keep the dark away

Melanie Safka, Lay Down


Don’t question why she needs to be so free
She’ll tell you it’s the only way to be
She just can’t be chained
To a life where nothing’s gained
And nothing’s lost
At such a cost

There’s no time to lose, I heard her say
Catch your dreams before they slip away
Dying all the time
Lose your dreams
And you will lose your mind.
Ain’t life unkind?

Rolling Stones, Ruby Tuesday




… e adormece.

vem adormecer no meu colo, no meu peito.
no meu eu, que não conheces e é tão teu*




segunda-feira, janeiro 03, 2005

no buraco da parede

em que me encontraste, deixei-te um recado. não o escrevi, só o deixei lá, para que o sintas, já que não me sentes.
dizia que lá ao fundo, onde os olhos queimam por não conseguirem albergar, há uma fonte com musgo. para quê, perguntas? pode ser para nada. nós já temos tantas coisas… tantas que levam ao desprezo de todas. é como com as pessoas, que também deixam de ser importantes porque são muitas. assim, se lá fores e escorregares, como aquilo não é para nada, ficas verde porque sim. só que, quando eu te vir verde, sei que isso aconteceu porque sim, mas foste lá porque sentiste o meu recado como não me sentes a mim.
se eu fico triste, não interessa. faz de conta que não sinto. se calhar nem sinto mesmo…

agarraste-me e sacudiste-me com toda a força, até ficar tonta e quase inconsciente. libertaste o que eu não sabia ter trancado dentro de mim, e deste-me parte da tua liberdade, também. até que ficámos os dois presos – eu segurava a tua vida e tu a minha morte. largaste-me já débil, mal conseguindo trepar a um novo buraco de parede. deixaste cair a faca que trazias na mão para me tirares a pele, teu sustento. as balas que tilintavam no bolso da tua camisa como que te trespassavam, justificando as lágrimas que te caíam. para quê matar-me? afinal era só mais um bichinho, e o sol iluminava o meu corpo nu para que tivesses a noção de que estava mesmo ali… puseste-me junto a um buraco de uma árvore e foste embora, eu a ver-te.

quando escorregares, pode ser que me sintas. ficas verde e voltas à parede, mas ao meu nível, ao meu lado, a dar-me o mimo que te quero dar a ti.


teimamos em fazer guerra quando ainda há tanto amor por fazer…



quarta-feira, dezembro 29, 2004

parece que a natureza nos odeia, pois é

que age contra nós e nos despreza

ó estupidez tamanha

e o que lhe fazemos todos os dias?
escarramos-lhe na cara, no mínimo dos mínimos
atraiçoamo-la com pregões de assassinos
tentamos dominá-la e destruí-la
para nos podermos vangloriar da sua submissão

e ela não cede, não!

queremos ultrajar a sua beleza
à nossa imagem feia
tentamos forjar a nossa tristeza à sua
e condensá-las na mesma teia

e prendê-las até à morte lenta
e estúpida
e cega
e bruta e horrível

a sua porta range
entramos triunfantes
pois não nos dignamos ao puro suicídio
sorrimos confiantes
e o sangue verde a esvair-se

ilimitadamente
inconscientemente
sofregamente



e então ela chora.
chora tanto que nos afoga no seu pranto.
e só nos queria afagar, no entanto…



terça-feira, dezembro 21, 2004

as mãos

as mãos eram frias, pois limitavam-se a escrever. não conheciam o tacto das coisas, só o descreviam pela memória das outras partes do corpo. não sabiam distinguir as formas, pois não lhes encontravam utilidade. na verdade, apenas tocavam superficialmente no mundo, partindo logo para a sua explanação – sempre metafísica (que alternativas?).

houve um dia em que o frio do mundo era tanto, tanto, que as mãos tiveram de agir para não deixarem as palavras que escreviam cristalizar.
e então sentiram, tocaram, rasgaram, acariciaram, numa dança de corpos e mentes. e a dança não era só do seu corpo, nem era por ele que a faziam, mas sim por um mundo de corpos que todos os dias nos faz uma cama para podermos deitar-nos.

depois, o mundo aqueceu as mãos. contou-lhes, em surdina, que aquilo era o começo do seu calor, que não podiam deixar de agir, senão o mundo ficaria cada vez mais frio e duro, e, ainda por cima, contra a sua vontade…

as mãos começaram então a falar com os braços, a mimar a cabeça, a tocar o tronco e a sentir as pernas, e perceberam…

não estamos sozinh@s


domingo, dezembro 19, 2004

que coisa se passa por aqui

são dias azedos e dores no peito
uma flauta demasiado aguda a zumbir-me irritantemente aos ouvidos

e as histórias de embalar, para onde foram?

"eu sou a rosinha, a tua amiguinha, vamos dar as mãos e cantar uma canção"

desespero nas linhas tortas do que vejo
do que penso
do que sinto

não tenho mãos por que me possam agarrar
não tenho boca para cantar

não há voz no meu mundo
estúpido mundo
estúpida eu
o mundo não é meu

quero ver luas e sóis e estrelas e flores
quero campos verdes
cheiros

quero amor



e o sol vai brilhar para ti porque tu és lind@


ensinem-me a sorrir


quinta-feira, dezembro 16, 2004

os meus olhos estão entreabertos para que me possas ver tanto acordada como a sonhar

_

já é tarde, estou na cama, quentinha, à excepção dos pés, que estão frios - à espera de uma caminhada, possivelmente. quem sabe, à espera de um passeio contigo...

como se te passasse a mão pela cara, tocando os teus olhos e vendo o que tu vês por um segundo, dou uma festa ao ar. ele sorri, encolhe-se ao meu colo e abraça-me. dá-me um beijo com ternura, não sei bem onde, e corre por mim feito arrepio, sangue e pele.

ascende, trepando às mágoas. mima-as e desinfecta algumas feridas, acalmando a dor. pega na minha inconsciência e sopra-lhe vida, e murmura nos meus ouvidos: "amor"...

no meu peito, acaricia a imagem que guardo da meiguice. empurra-me, confunde-me, rodeia-me, balança-me, com força e mais força!... até que caio ao chão, tonta, perdida num sonho. não sei qual, não me lembro...

aí perdida e caída me deixa, entregue ao calor húmido da terra. afundo-me, em direcção a muito abaixo, onde não se respira por se sonhar tanto.



e depois ouço

não é necessário estar-se vivo para se sonhar, mas é necessário sonhar-se para viver

domingo, dezembro 12, 2004

queria fazer e sentir muitas coisas, mas estou sufocada.

suspensa no mundo pelo cordão umbilical, não te vejo! esgano-me a mim mesma por te procurar, mas não te capto… apetece-me gritar e dizer que te amo, ou não, não dizer que te amo, dizer que amo, o quê não sei, quem não sei, talvez tudo e tod@s!

não há tempo ou imagem que o explique.
estou só e não há nada que justifique o contrário.


de novo a embalar-me entre o tudo e o nada
o ninguém e o alguém

de novo solta e despida
a pele foi-me arrancada
estou a cair

digo-te que não pegues em mim

pois não, estou em carne viva,
ficarias cheio de sangue
a ver-me desfazer aos bocados

mas que violência é esta?

que ternura amarga me amassa
e te destrói?

não fujas

só quero um colo
um recado inesperado

um beijo perdido no ar que me encontre

um cobertor
ou uma pele nova

tenho vergonha
tenho medo
tenho vontade
mas não sei de quê

o mundo mata-me
ao tentar viver-me

o espaço pisa-me

gostava de ser vento
de não ter corpo


mas sentir-te




e, afinal, não te tenho…

domingo, dezembro 05, 2004

Carta ao Pai Natal

Querido Pai Natal…

Este ano não sei bem o que te pedir. Queria tantas coisas! Será que poderias dar-me pelo menos uma? Ao equacionares essa hipótese, lembra-te que não deixei de te escrever em nenhum ano e que sempre te respeitei (apesar de não te compreender).
Então é assim: como já não tenho idade para pedir brinquedos – já passei à fase de os fazer ou comprar eu –, pensei em pedir-te roupa. Só que entretanto estive na rua (hoje está frio e a noite vai longa) e vi pessoas tão pessoas como eu adormecidas no cimento, tapadas com cartões. Concluí que a roupa que já tenho sobra-me e faz falta a outros. Para quê mais? Por isso, esquece.
Depois pensei em música. A cultura é linda! Preciosa para o meu bem estar!... e ao de uns tantos outros que gozam com a exploração do trabalho alheio. Fazes ideia de como tudo está ligado? Da Nestlé à Warner Lusomundo, a teia de ligações capitalisticamente perigosas para a sustentabilidade do nosso mundo??? Valha-me a pirataria!... E as lojas é que não escapam… Bem… é isso, não vale a pena. Esquece, também.
Entretanto surgiu-me a ideia de te pedir livros. A lista da escola vai em infinito + 1, não dá para os comprar todos… (nem ler… ups!) E para que tos pediria neste momento? O que eu vou precisando relaciona-se com um contexto de espaço e tempo, não se cinge a uma fase dita de “consumo habitual e justificado”. Sou uma apaixonada por livros, ok. Mas há tantos à disposição que ainda não li! Há tantas pessoas dispostas a emprestar-me obras novas, tantas bibliotecas por explorar… Deixa lá, Pai Natal. Fica para a próxima! ;)
Não preciso de meias ou cuecas. Nem de bijouterias, maquilhagem, perfumes e adornos que tais – para ser eu, englobada no espírito de fraterna verdade do Natal.

Por acaso, queria falar contigo sobre o espírito. Não quero interferir com crenças religiosas, não. Mas o espírito não devia ser de comunhão, alegria, fraternidade, reflexão? Então porque é que as pessoas andam por aí atarefadas a fazer compras insignificantes em vez de conviverem em paz? Porque se matam todos os dias para ver quem consegue comprar mais, em vez de se unirem como irmãos, companheiros, pares, similares viventes? Dá-se por se dar e não por significar? Bem sei que a intenção possa nem sempre ser má, mas onde ficou a reflexão? Guardada no mito? Perdeu-se nas férias? Fugiu para algum lado?

Quero pedir-te um sorriso sincero e um beijo terno. Um abraço de amor, um colo meigo e não uma cadeira de ouro. Uma palavra alegre e não uma acusação de crime por divergência. A capacidade de estar com quem me magoou e, não obstante, ver um arco-íris. De dar a mão, o corpo, a mente, a quem o faça também comigo. De espalhar a felicidade.

Pedi muitas coisas. Pode ser que saia alguma!...

domingo, novembro 28, 2004

já os Ornatos diziam... "o monstro precisa de amigos"

um dia de chuva e frio por fora e por dentro levou o monstro a pensar no conforto e no calor.
tinha já visto muitas coisas e pessoas e passado por muitas situações, mas terminava sempre tudo a ouvir “não te esqueças que és um monstro”. e a cada dia que passava o monstro tinha mais e mais frio, o seu pêlo rareava, a roupa estava toda rota, os pés gretados e calejados de tantos picos que pisava. tinha bastantes nódoas negras e duas cavidades húmidas a fazer de conta que eram olhos.
passeava pela rua cabisbaixo, o fumo corroía-lhe as cavidades faciais e fazia com que chorasse sem conseguir parar.

nesse mesmo dia de chuva e de frio, a corrente de vento passou pelo monstrinho e tentou bufar-lhe com força suficiente para não haver água a cair sobre as nuvens, já que os seus risinhos de cócegas a irritavam solenemente. mas quanto mais soprava, mais água caía do monstrinho e mais as nuvens se riam! até que desistiu e tentou parar o choro de outra forma.
“que tens para estares assim?”
“é o fumo dos dias que passam por mim”
“só os dias é que passam? e os amigos?”
“o que é isso?”
“Amigo é aquele que ama o umbigo do outro mas sem querer que os seus umbigos estejam sempre colados.”
“ninguém ama o meu umbigo! só vejo danças redondas sobre os próprios umbigos ou doisbigos muito juntinhos… se há frio dança-se, mas depois da dança há tanto calor que os umbigos todos se afastam e fica outra vez tanto frio…”
“eu não tenho umbigo, não sei, aprendi à vista desarmada…”

o frio parou um bocadinho, concentrado na conversa da corrente e do monstro, e acrescentou:
“nunca vos disseram «vou estar contigo para sempre»?”
“não” – respondeu a ventania.
“já” – contrapôs o monstrinho.
“e o que respondeste?” – perguntaram ambos.


“para o sempre todo ou só algum?...”


silêncio.

o monstro continuou então o seu caminho, olhos humedecidos pelo esforço,com um ventinho a soprar-lhe ao ouvido coisas que não entendia e um novo frio a chegar ao fundo de si.

quinta-feira, novembro 25, 2004

sonhei com a paz

"eles não sabem, porque trazem os sonhos trocados", Gualter

o mundo do sonho é branco, a cor nenhuma. precisa de ser pintado pelos sonhadores que nele habitam... mas como? onde se vai buscar a tinta, os pincéis, talvez até os aparos ou o carvão? no mundo do sonho há tudo mas não há nada. depende de cada um de nós e de nós tod@s.
se nos iludirmos com "sonhos trocados" até vivemos, mas não somos nós. se para mim a paz e o amor são princípios pelos quais desejo orientar-me, então faço-o. e não quero magoar ou menosprezar, apenas amar em paz.

Revoltem-se as armas
silenciem o fogo
formem labaredas
gritos de socorro
o mundo morre
a cada bala
o tempo corre
sofrimento fala
gritem mais alto
peçam Paz
ao mundo em sobressalto
pois cada um traz
uma flor dentro de si
que, estrangulada, sorri
parem a dor
façam Amor
na rua
tornem a vida
nua
definida

20 abril 2002