domingo, outubro 16, 2005

um reflexo do que me fazes ser

desta vez o texto é mais longo, com mais influências de parede: "tanto que dizer... e tanto silêncio...", praça filipa de lencastre; "amar es el empieze de la palabra amargura", talho de cedofeita; "o meu abraço tem a forma do teu corpo", teatro carlos alberto.



um reflexo do que sou



Há momentos em que não entendemos o silêncio. Temos esse direito. Aqueles pequenos sons que nos passam entre os dedos vão fluindo melancolicamente através do tempo. Não são cães, nem carros, nem vozes, nem folhas de árvores – basicamente porque não nos apercebemos, porque focamos a objectiva para o não-ser que existe no meio de tudo.
Depois lembramo-nos do nada e até nos apetece viver lá. Porque no nada flutuamos como os sons, não há corpo que se nos sobreponha, não há ilusão que nos fira ou espírito que nos corrompa. Somos, simplesmente.

Mas o nada parece tão vazio, tão desprovido de tudo… De que adianta alhearmo-nos na sombra da noite, debruçad@s na janela do quarto, a ouvir o vento passar? Não nos alimenta, nem nos faz sentir vivos ou úteis… E o tempo flui, ao seu ritmo, sem nos tomar por notas ou pausas musicais.

Há tanta raiva subjacente à calma que aparentamos… “tanto que dizer… e tanto silêncio…”

Queres que te conte uma história? Que te ponha um “Era uma vez…” a meio do discurso, mesmo sabendo nós que esses vastos mundos hipotéticos ou condicionais ainda nos vão doer mais que a visão do vazio?...
Não te deixo. Seria demasiado fácil e contundente para as expectativas do mundo.

“Amar es el empieze de la palabra AMARGURA”

… e sinto tanta raiva… daquelas que estão entranhadas na pele e na língua, e na retina dos olhos, e no sal das lágrimas. Daquelas que escondo, camuflada por sorrisos conscientes do seu fundo impróprio. Como se fosse um beijo interrompido por um abrupto silêncio, incomodativo, com mau sabor, de uma agressividade latente sem escrúpulos ou limites…
Mas é assim que te amo. Sem escrúpulos ou limites, de forma interrompida, silenciosa, incomodativa, agressiva e com o sabor mais agreste de que a natureza me poderia cobrir.

Tens o espaço e o tempo, não tos roubo. Volto ao vazio, à amargura solitária de quem ama mas não te sente, te procura e te encontra longe.

O teu corpo tem a forma de outros braços, não dos meus. O meu corpo é permanentemente amorfo, qual estabilidade aparente…

O sol foi-se embora. Vai nanar, meu amor… Cobre-te de lua e de estrelas, noite dentro. Fico de longe a cantar-te o silêncio, a dor cobre-me e tira-me o frio, a raiva aquece-me as mãos. Caminharei até os pés aquecerem, sangrados, à procura da tua imagem algures no sono.

Estou demasiado nua, desculpa-me a ousadia… Não quero que me toques, seria ultrajante. As palavras escorrem pelo meu corpo como gotículas de suor, e permaneço fria. Os sonhos palpitam a uma velocidade estonteante, fazendo com que o meu peito não caiba nas suas próprias dimensões. Os braços alongam-se e vão estreitando até deixarem que os dedos toquem o nada, paralelos às contracurvas do meu corpo… Pés pequenos, doridos, em ferida. Pernas flácidas, curtas demais para a distância que nos separa.

Que corpo insuficiente para ocupar o teu espaço…

Mas esta sou eu, nua e crua, alojada no vazio dos olhos por que passamos.

Dou-te os meus olhos, têm palavras mais puras que os meus dedos.
… Não os queres ver? Pena…

Mas deixa lá, não faz mal. Conformei-me na melancolia das coisas simples, das músicas feitas, das palavras previsíveis, dos olhos fechados.

Vamos dançar, o mundo é nosso e somos pequenin@s! Que a alegria é irmã da melancolia…


Um beijo no meio do sempre*

2 comentários:

Lampimampi disse...

fogo, tu escreves cenas tao bonitas mas taaaaaaaao tristes...

*

phoebe disse...

...tens razão quanto à tristeza. tenho de falar com o sujeito poético, a ver se muda de roupa ;) *