Na Avenida da Liberdade estava uma senhora com carteira de marca, chapéu distinto, saia pregada e collants cosidos e rotos em vários sítios. Foi, provavelmente, uma das presenças mais verdadeiras que encontrei.
A verdade daquela senhora incluía tanto a maquilhagem irrepreensível quanto os buracos inusitados pelas pernas fora. É ela, a Avenida da Liberdade. A Pans&Company das senhoras em casacos de pele. Vi-a no momento esquisito de não saber em que língua pensava, ao regressar das aulas de italiano pela Salitre fora, chegando ali. Ando sem perceber ao certo o que é Lisboa, mas aquela é a sua avenida central, a mais poluída, traficada e percorrida das vias alfacinhas, com o terno nome de Liberdade.
Uns metros antes da senhora estavam alguns jovens a pedir contribuições para ajudar cães de rua. Mais acima, um labirinto de caixas de cartão - casa à porta de uma loja vazia, o lugar (de dia desabitado) de um sem-abrigo da zona. Mais abaixo há muitos teatros, restaurantes e hotéis finos, na outra margem surge até a loja do cidadão. Nos intervalos, entre semáforos e segmentos de verde, metálico e pedra, há várias lojas, sobretudo sem preços na montra.
A Avenida da Liberdade é o realismo na performance de Lisboa. O luxo vazio mas central e de pobreza à porta, o fumo da imensa passagem, o pedaço-jardim arranjado, as meias rotas. Aquela senhora, de costas mais direitas que as minhas, era do mais verdadeiro que há. As pernas estavam inchadas e pesadas. Subiu uma escada rolante à minha frente, não a fotografei.
quarta-feira, março 06, 2013
domingo, fevereiro 17, 2013
Falta primavera
nos olhos nublados e frios,
na tempestade indomável como a alma
e na alma das coisas que a não têm.
Faltam estações além das de comboio,
estruturas circulares onde uma pessoa vai e volta
como aqueles suspiros que podem repetir-se na manhã seguinte.
Há demasiadas máscaras para tão maus actores.
Muitos actos para um guião subdesenvolvido.
Escasseia o sol na pele morena empalidecida,
tanto que por mais que a água nos espelhe
pouco ou nada reflecte em brilho.
Tornámo-nos pálidos e baços,
trupe anémica engolida em lã.
Bendita primavera das doces flores,
aproxima-te e leva o turbilhão de vento
que ele levará o grito adoentado
que por sua vez surgiu da revolta inactiva.
As pessoas estão cansadas, primavera.
Ombros nus desejam abraçar-te.
na tempestade indomável como a alma
e na alma das coisas que a não têm.
Faltam estações além das de comboio,
estruturas circulares onde uma pessoa vai e volta
como aqueles suspiros que podem repetir-se na manhã seguinte.
Há demasiadas máscaras para tão maus actores.
Muitos actos para um guião subdesenvolvido.
Escasseia o sol na pele morena empalidecida,
tanto que por mais que a água nos espelhe
pouco ou nada reflecte em brilho.
Tornámo-nos pálidos e baços,
trupe anémica engolida em lã.
Bendita primavera das doces flores,
aproxima-te e leva o turbilhão de vento
que ele levará o grito adoentado
que por sua vez surgiu da revolta inactiva.
As pessoas estão cansadas, primavera.
Ombros nus desejam abraçar-te.
terça-feira, fevereiro 12, 2013
Sobre a mulher-propriedade
"Quando duas categorias humanas se acham em presença, cada uma delas quer impôr à outra a sua soberania; quando ambas estão em estado de sustentar a reivindicação, cria-se entre elas, seja na hostilidade, seja na amizade, sempre em tensão, uma relação de reciprocidade. Se uma das duas é privilegiada, ela domina a outra e tudo faz para mantê-la na opressão. Compreende-se, pois, que o homem tenha tido vontade de dominar a mulher. Mas que privilégio lhe permitiu realizar essa vontade?" (Beauvoir, 2008: 99)
Beauvoir conta-nos que, do período agrícola até à actualidade do seu ensaio, é possível interpretar um conjunto de visões sobre a mulher. Nessa evolução há um carácter relativamente estável: a mulher-propriedade sob domínio do homem.
1. A mulher que desempenhava o trabalho campestre permanente, já que ao homem cabia o trabalho ocasional de defesa, caça e pesca.
2. A mulher que se reproduzia, desempenhando um papel protector e nutritivo, podendo tornar-se autónoma mas não se bastando dessa estagnação natural enquanto espécie; a mulher dá a vida, mas o homem é-lhe superior já que é ele que arrisca a vida na guerra.
3. A mulher na visão da posteridade: o seu papel biológico vê-se subjugado ao valor da propriedade (privada) em transmissão entre gerações; a mulher que procria para criar herdeiros.
4. A mulher serva de senhores, simultaneamente reprodutora e cumpridora das tarefas domésticas, que é subordinada pela exaustão e, mais tarde, pelas instituições.
5. A mulher do mistério produtivo (na concepção e nas colheitas) e o homem que passa a superá-la no domínio da técnica, no aparente controlo sobre a natureza.
"Assim, o triunfo do patriarcado não foi nem um acaso nem o resultado de uma revolução violenta. (...) Condenada a desempenhar o papel do Outro, a mulher estava também condenada a possuir apenas uma força precária: escrava ou ídolo, nunca é ela que escolhe o seu destino" (Beauvoir, 2008: 118). O pacifismo (com momentos e situações pontuais de excepção) da mulher-propriedade enquanto dominada (propriedade de outrem) e da mulher que se dedica à propriedade terrena constante (trabalho doméstico, no campo, na criação dos filhos).
Venha um salto no tempo, mas recomendo que leiam a retrospectiva histórica e filosófica de Beauvoir. Passo aos dias que acompanharam o meu crescimento. Os dias em que os nascidos quando "O Segundo Sexo" foi escrito já eram adultos e, por vezes, pais. Já evidenciavam a alteração de estatuto da mulher, a emancipada que pode viver autónoma (ainda que com rendimentos inferiores aos do homem), divorciar-se, votar, cometer um crime e ser julgada como pessoa (reduzindo a imputação de género na justiça). Tudo isso foi escrito e por mim lido. O resto partiu da observação do jogo escondido, das legitimidades em acção que permeavam as relações de quem fui conhecendo.
Crescemos sob matriz judaico-cristã, tantas vezes não apenas ao nível de valores como também sob a mão prática da religião institucionalizada. A obediência era conveniente e um dos meios rápidos de a conseguir era face ao medo patriarcal da autoridade: medo do pai, medo do polícia, medo do director e até, imagine-se, medo do papão (significado do escuro, do que não vemos; já as bruxas podiam ser vistas e causavam bem menos receio). A consequência da não obediência tornava-se, assim, previsível: punição por mão grande, por voz grande, por aqui que não vislumbramos e, por isso, não podemos enfrentar.
Garantir o desequilíbrio e a falta de reciprocidade através do privilégio da parte dominante - tática imediata e eficaz. O que nunca entendi foi que tantos pensassem ser directa a relação entre medo, obediência e respeito ou educação. Pois se uma criança, crescendo em homem e mulher, aprende a ser propriedade do medo e seus detentores, como poderá emancipar-se sem fugir ao pacifismo da sua dominação? Legitimando a sua vida adulta como novo papão? Criando um matriarcado violento como o exemplo patriarcal em que cresceu ou que foi observando em quem rodeava? Simulando a violência emancipatória e continuando a legitimar, nas escondidas de quatro paredes, ser propriedade de outrem?
Não creio que a dominação homem-mulher esteja muito afastada do que se legitimou, ao longo dos anos em que cresci, sobre a suposta superioridade de adultos sobre crianças, de padres sobre praticantes e outros religiosos, de patrões sobre empregados, de professores sobre alunos, entre outras dialéticas em que a autoridade pode passar a autoritarismo num piscar de olhos e a legitimidade continua a abraçar a vida dos primeiros. Creio, por outro lado, que se a parte humana se sobrepuser à parte proprietária - a pessoa que é e cresce, acredita, trabalha e/ou estuda, vive - ganhamos nova hipótese de reciprocidade na luta partilhada do desenvolvimento.
Aquela que se recusa a ser propriedade de outrem e até, imagine-se, que luta para não ser propriedade das suas propriedades terrenas - materiais (casa) ou de vontade do seu espírito activo (papéis que se atribui no trabalho ou activismo, por exemplo), não passa de mulher a fêmea; cresce e abandona o seu lado mais objecto no sentido do de sujeito, de algo que supera o seu imediato ou futuro previsto. Existir supera essas propriedades. Existir como mulher requer mais luta que a média.
Beauvoir conta-nos que, do período agrícola até à actualidade do seu ensaio, é possível interpretar um conjunto de visões sobre a mulher. Nessa evolução há um carácter relativamente estável: a mulher-propriedade sob domínio do homem.
1. A mulher que desempenhava o trabalho campestre permanente, já que ao homem cabia o trabalho ocasional de defesa, caça e pesca.
2. A mulher que se reproduzia, desempenhando um papel protector e nutritivo, podendo tornar-se autónoma mas não se bastando dessa estagnação natural enquanto espécie; a mulher dá a vida, mas o homem é-lhe superior já que é ele que arrisca a vida na guerra.
3. A mulher na visão da posteridade: o seu papel biológico vê-se subjugado ao valor da propriedade (privada) em transmissão entre gerações; a mulher que procria para criar herdeiros.
4. A mulher serva de senhores, simultaneamente reprodutora e cumpridora das tarefas domésticas, que é subordinada pela exaustão e, mais tarde, pelas instituições.
5. A mulher do mistério produtivo (na concepção e nas colheitas) e o homem que passa a superá-la no domínio da técnica, no aparente controlo sobre a natureza.
"Assim, o triunfo do patriarcado não foi nem um acaso nem o resultado de uma revolução violenta. (...) Condenada a desempenhar o papel do Outro, a mulher estava também condenada a possuir apenas uma força precária: escrava ou ídolo, nunca é ela que escolhe o seu destino" (Beauvoir, 2008: 118). O pacifismo (com momentos e situações pontuais de excepção) da mulher-propriedade enquanto dominada (propriedade de outrem) e da mulher que se dedica à propriedade terrena constante (trabalho doméstico, no campo, na criação dos filhos).
Venha um salto no tempo, mas recomendo que leiam a retrospectiva histórica e filosófica de Beauvoir. Passo aos dias que acompanharam o meu crescimento. Os dias em que os nascidos quando "O Segundo Sexo" foi escrito já eram adultos e, por vezes, pais. Já evidenciavam a alteração de estatuto da mulher, a emancipada que pode viver autónoma (ainda que com rendimentos inferiores aos do homem), divorciar-se, votar, cometer um crime e ser julgada como pessoa (reduzindo a imputação de género na justiça). Tudo isso foi escrito e por mim lido. O resto partiu da observação do jogo escondido, das legitimidades em acção que permeavam as relações de quem fui conhecendo.
Crescemos sob matriz judaico-cristã, tantas vezes não apenas ao nível de valores como também sob a mão prática da religião institucionalizada. A obediência era conveniente e um dos meios rápidos de a conseguir era face ao medo patriarcal da autoridade: medo do pai, medo do polícia, medo do director e até, imagine-se, medo do papão (significado do escuro, do que não vemos; já as bruxas podiam ser vistas e causavam bem menos receio). A consequência da não obediência tornava-se, assim, previsível: punição por mão grande, por voz grande, por aqui que não vislumbramos e, por isso, não podemos enfrentar.
Garantir o desequilíbrio e a falta de reciprocidade através do privilégio da parte dominante - tática imediata e eficaz. O que nunca entendi foi que tantos pensassem ser directa a relação entre medo, obediência e respeito ou educação. Pois se uma criança, crescendo em homem e mulher, aprende a ser propriedade do medo e seus detentores, como poderá emancipar-se sem fugir ao pacifismo da sua dominação? Legitimando a sua vida adulta como novo papão? Criando um matriarcado violento como o exemplo patriarcal em que cresceu ou que foi observando em quem rodeava? Simulando a violência emancipatória e continuando a legitimar, nas escondidas de quatro paredes, ser propriedade de outrem?
Não creio que a dominação homem-mulher esteja muito afastada do que se legitimou, ao longo dos anos em que cresci, sobre a suposta superioridade de adultos sobre crianças, de padres sobre praticantes e outros religiosos, de patrões sobre empregados, de professores sobre alunos, entre outras dialéticas em que a autoridade pode passar a autoritarismo num piscar de olhos e a legitimidade continua a abraçar a vida dos primeiros. Creio, por outro lado, que se a parte humana se sobrepuser à parte proprietária - a pessoa que é e cresce, acredita, trabalha e/ou estuda, vive - ganhamos nova hipótese de reciprocidade na luta partilhada do desenvolvimento.
Aquela que se recusa a ser propriedade de outrem e até, imagine-se, que luta para não ser propriedade das suas propriedades terrenas - materiais (casa) ou de vontade do seu espírito activo (papéis que se atribui no trabalho ou activismo, por exemplo), não passa de mulher a fêmea; cresce e abandona o seu lado mais objecto no sentido do de sujeito, de algo que supera o seu imediato ou futuro previsto. Existir supera essas propriedades. Existir como mulher requer mais luta que a média.
quinta-feira, fevereiro 07, 2013
Sobre a mulher agradável que tem (vergonha de) um corpo
Sento-me ao sol no pátio caótico que demorarei a arrumar. Apoio o caderno n'«O Segundo Sexo [I]» de Simone de Beauvoir, ao qual regresso uns bons anos depois de o ter encontrado. Falta uma semana para dia 14 de Fevereiro, dia V - não só de S. Valentim, será também dia de reivindicação mundial pelos direitos das meninas e mulheres. Sugerindo uma semana de reflexão sobre estes V-direitos, começo por pensar no direito ao corpo.
Creio ser universal a visão de que o corpo é um direito - da atribuição divina de um corpo para existência terrena até à consideração do corpo enquanto locus de marca no correr do tempo; o corpo que materializa a vida, o corpo que caminha, o corpo em que o caminho se tatua, o corpo que morre por natureza ou desígnio. A questão não será se o corpo é um direito; é mais: o corpo é um direito de quem?
A resposta verbal pode ser mais imediata que a resposta vivida. Não tenho qualquer dúvida em trazer para as letras: o direito sobre o corpo é detido pelo próprio, pela pessoa-corpo-espírito-mente que o vive. A dúvida surge na retrospectiva: será que sempre confiei nesse meu direito e nunca o desrespeitei, emprestando-o à voz e acção dos outros? Não, nem sempre assumi esse direito.
Não creio que se trate somente de um problema feminino, mas sim de uma questão generalizável a diferentes grupos potencialmente mais vulneráveis. Quando se coloca o problema do direito sobre o corpo, o meu primeiro pensamento recai sobre as crianças. Que direitos lhes atribuem as estruturas colectivas no que toca à sua salvaguarda corporal? No caso português, estatutariamente, muitos direitos lhes são atribuídos e reconhecidos. Pude observá-lo na legislação sobre serviços sociais para a infância e seu atendimento educativo, há uns anos atrás. Mas do espectro legal à realidade praticada há sempre espaço de viagem, e a viagem pode tornar-se particularmente tortuosa nos espaços mais escondidos: a criança dentro da sala, a criança dentro de casa, a criança onde pode não ser vista. E aí não haverá lei que nos salve; para esses lugares escondidos, acredito que a única salvação é rever o que é ou deixa de ser legítimo na nossa acção.
A violência ainda é legítima. A repreensão física sobre quem não tem estrutura possível para responder, ainda que actualmente tenha menor aceitação, continua a ter muita. A formação do respeito ainda se confunde muito com a criação do medo, seja por meio físico ou verbal. A educação é imprescindível e ainda não se domina a sua versão respeitosa, assertiva e não violenta. A família e a escola são geralmente os guardiões do direito sobre o corpo das crianças e muitas vezes não sabem salvaguardar esse direito, desprezando até a voz da própria criança. O seu corpo, através do qual aprende ao explorar o mundo, torna-se no primeiro saco através do qual duvida sobre a dignidade da sua pessoa.
O corpo vergonhoso surge muito cedo. Rapidamente as crianças se apercebem que dizer magro, gordo, caixa de óculos, perna longa, perna curta, marcado, descabelado, juba de leão, olhos tortos, dentes esquisos [e por aí fora] tem um impacto nos outros. A partir daí agem e reagem, são mais ou menos legitimadas e reforçadas pelos adultos que as rodeiam, resolvem ou deixam por resolver uma série de questões. Mas, enquanto crianças, ficam tendencialmente na versão parcial da resolução - ao não deterem e dominarem o direito sobre o seu corpo, estes dilemas (sobretudo se surgirem num contexto de pouca confiança própria) perpetuam-se na atribuição da resolução ao outro. Uma pessoa será bonita, inteligente e agradável se o outro a reconhecer como tal.
O "agradável" foi posto de propósito para abordar a questão feminina. As mulheres não são crianças grandes, mas a imputação do "papel agradável" faz com que muitas vezes se assemelhem na infantilidade emotiva ligeirinha que se lhes legitima. Dizia Beauvoir sobre Stendhal: "Esse terno amigo das mulheres, e precisamente porque as ama na sua verdade, não crê no mistério feminino; nenhuma essência define de uma vez por todas a mulher; a ideia de um «eterno feminino» parece-lhe pedante e ridícula. «Pedantes repetem há dois mil anos que as mulheres têm o espírito mais vivo, e os homens mais solidez; que as mulheres têm mais delicadeza nas ideias, e os homens maior capacidade de atenção. Um basbaque de Paris que passeava outrora pelos jardins de Versalhes concluía, do que via, que as árvores nascem podadas.»" (p. 337). A mulher agradavelmente podada é a que responde aos mitos do feminino: é a carne da natureza, simultaneamente húmus e beleza sensível, detentora das chaves da poesia, mediadora entre o natural e o sobrenatural, votada à imanência passiva da distribuição de paz e harmonia, o outro que serve à realização do homem (palavra de Beauvoir). Além destas versões da mulher, há a fêmea.
Queria falar sobre o corpo. Creio que o corpo reflecte as mesmas categorias da mulher agradável. O corpo agradável vai tendo standards diferenciados, já foi mais arredondado, agora é emagrecido, relativamente alto e sob a moda do étnico - não importa só a barbie 34 loira branquinha, também pode ser africana ou asiática e de tonalidades variáveis. Mas, seja como for, terá de ser consciente sobre a sua carne: revelando-a ou escondendo-a na noção de que isso pode provocar acções de realização por parte do homem. Domando o corpo para que diga "sensível" ou até "transcendente". Passar de fêmea a feminina.
A vergonha começava por ligar-se à não conformidade com o standard 34 simétrico, com a bacia que não encaixava na forma pretendida para as ancas, com a dificuldade de concretização física de algumas actividades e a exposição que daí derivava. Somavam-se cicatrizes tatuadoras de muitos momentos e actividades hormonais desconcertantes. Falo da minha vergonha. Do facto de só ter conseguido comprar uma saia curta em 2007, três anos depois de começar este blog, e de ainda hoje só a conseguir usar com meias opacas, "para que não se veja". Falo da dificuldade em sair à rua com um decote, "porque é tentador" - e quando alguém manifesta a tentação fico tão desorientada que o corpo entra em colapso, viro costas, volto a casa, troco de roupa e saio de olhos no chão. Nestes momentos, não respeito o direito ao meu corpo. Contribuo para a paz violenta, aquela em que os olhos alheios nos controlam e depois fica tudo calminho. Contribuo para a poesia do silêncio improdutivo, aquela poesia que na realidade se basta em rimas cruzadas e sempre consoantes.
Vivo num país que faz parte dos 199 países que dia 14 se levantam para dizer "viva a mulher" e não "vergonha de mulher". Sugiro que todos/as o celebrem e se coloquem alguns "e se?". Por exemplo: e se não caísse na tentação de dizer à pessoa aqui ao lado "assim estás bem, fica-te bem"? É que isso pode querer dizer que antes estava mal - da mesma maneira que dizer "hoje estás particularmente elegante" não nos deixa pensar que alguma vez não estivemos bonitos/as - isso é-se, não se está. E se repetíssemos que o corpo faz parte de um conjunto mais vasto e autónomo, não sendo um vegetal que aguarda acção externa? Talvez a diferença mentalizada entre homem e mulher se tornasse não tão mais que um conjunto de diferenças corporais - sobre isso, como sobre a personalidade e o espírito activo, somos livres. Quando a soberania individual sobre o corpo for real, o abuso sexual será uma miragem longínqua. A legitimidade é uma coisa construída e temporalmente relevante; sugiro que se deslegitime a violência e que se legitime a soberania sobre o corpo. Já perdemos tempo demais.
Simone de Beauvoir (2008) O Segundo Sexo, Lisboa: Quetzal (ed. original 1949)
Creio ser universal a visão de que o corpo é um direito - da atribuição divina de um corpo para existência terrena até à consideração do corpo enquanto locus de marca no correr do tempo; o corpo que materializa a vida, o corpo que caminha, o corpo em que o caminho se tatua, o corpo que morre por natureza ou desígnio. A questão não será se o corpo é um direito; é mais: o corpo é um direito de quem?
A resposta verbal pode ser mais imediata que a resposta vivida. Não tenho qualquer dúvida em trazer para as letras: o direito sobre o corpo é detido pelo próprio, pela pessoa-corpo-espírito-mente que o vive. A dúvida surge na retrospectiva: será que sempre confiei nesse meu direito e nunca o desrespeitei, emprestando-o à voz e acção dos outros? Não, nem sempre assumi esse direito.
Não creio que se trate somente de um problema feminino, mas sim de uma questão generalizável a diferentes grupos potencialmente mais vulneráveis. Quando se coloca o problema do direito sobre o corpo, o meu primeiro pensamento recai sobre as crianças. Que direitos lhes atribuem as estruturas colectivas no que toca à sua salvaguarda corporal? No caso português, estatutariamente, muitos direitos lhes são atribuídos e reconhecidos. Pude observá-lo na legislação sobre serviços sociais para a infância e seu atendimento educativo, há uns anos atrás. Mas do espectro legal à realidade praticada há sempre espaço de viagem, e a viagem pode tornar-se particularmente tortuosa nos espaços mais escondidos: a criança dentro da sala, a criança dentro de casa, a criança onde pode não ser vista. E aí não haverá lei que nos salve; para esses lugares escondidos, acredito que a única salvação é rever o que é ou deixa de ser legítimo na nossa acção.
A violência ainda é legítima. A repreensão física sobre quem não tem estrutura possível para responder, ainda que actualmente tenha menor aceitação, continua a ter muita. A formação do respeito ainda se confunde muito com a criação do medo, seja por meio físico ou verbal. A educação é imprescindível e ainda não se domina a sua versão respeitosa, assertiva e não violenta. A família e a escola são geralmente os guardiões do direito sobre o corpo das crianças e muitas vezes não sabem salvaguardar esse direito, desprezando até a voz da própria criança. O seu corpo, através do qual aprende ao explorar o mundo, torna-se no primeiro saco através do qual duvida sobre a dignidade da sua pessoa.
O corpo vergonhoso surge muito cedo. Rapidamente as crianças se apercebem que dizer magro, gordo, caixa de óculos, perna longa, perna curta, marcado, descabelado, juba de leão, olhos tortos, dentes esquisos [e por aí fora] tem um impacto nos outros. A partir daí agem e reagem, são mais ou menos legitimadas e reforçadas pelos adultos que as rodeiam, resolvem ou deixam por resolver uma série de questões. Mas, enquanto crianças, ficam tendencialmente na versão parcial da resolução - ao não deterem e dominarem o direito sobre o seu corpo, estes dilemas (sobretudo se surgirem num contexto de pouca confiança própria) perpetuam-se na atribuição da resolução ao outro. Uma pessoa será bonita, inteligente e agradável se o outro a reconhecer como tal.
O "agradável" foi posto de propósito para abordar a questão feminina. As mulheres não são crianças grandes, mas a imputação do "papel agradável" faz com que muitas vezes se assemelhem na infantilidade emotiva ligeirinha que se lhes legitima. Dizia Beauvoir sobre Stendhal: "Esse terno amigo das mulheres, e precisamente porque as ama na sua verdade, não crê no mistério feminino; nenhuma essência define de uma vez por todas a mulher; a ideia de um «eterno feminino» parece-lhe pedante e ridícula. «Pedantes repetem há dois mil anos que as mulheres têm o espírito mais vivo, e os homens mais solidez; que as mulheres têm mais delicadeza nas ideias, e os homens maior capacidade de atenção. Um basbaque de Paris que passeava outrora pelos jardins de Versalhes concluía, do que via, que as árvores nascem podadas.»" (p. 337). A mulher agradavelmente podada é a que responde aos mitos do feminino: é a carne da natureza, simultaneamente húmus e beleza sensível, detentora das chaves da poesia, mediadora entre o natural e o sobrenatural, votada à imanência passiva da distribuição de paz e harmonia, o outro que serve à realização do homem (palavra de Beauvoir). Além destas versões da mulher, há a fêmea.
Queria falar sobre o corpo. Creio que o corpo reflecte as mesmas categorias da mulher agradável. O corpo agradável vai tendo standards diferenciados, já foi mais arredondado, agora é emagrecido, relativamente alto e sob a moda do étnico - não importa só a barbie 34 loira branquinha, também pode ser africana ou asiática e de tonalidades variáveis. Mas, seja como for, terá de ser consciente sobre a sua carne: revelando-a ou escondendo-a na noção de que isso pode provocar acções de realização por parte do homem. Domando o corpo para que diga "sensível" ou até "transcendente". Passar de fêmea a feminina.
A vergonha começava por ligar-se à não conformidade com o standard 34 simétrico, com a bacia que não encaixava na forma pretendida para as ancas, com a dificuldade de concretização física de algumas actividades e a exposição que daí derivava. Somavam-se cicatrizes tatuadoras de muitos momentos e actividades hormonais desconcertantes. Falo da minha vergonha. Do facto de só ter conseguido comprar uma saia curta em 2007, três anos depois de começar este blog, e de ainda hoje só a conseguir usar com meias opacas, "para que não se veja". Falo da dificuldade em sair à rua com um decote, "porque é tentador" - e quando alguém manifesta a tentação fico tão desorientada que o corpo entra em colapso, viro costas, volto a casa, troco de roupa e saio de olhos no chão. Nestes momentos, não respeito o direito ao meu corpo. Contribuo para a paz violenta, aquela em que os olhos alheios nos controlam e depois fica tudo calminho. Contribuo para a poesia do silêncio improdutivo, aquela poesia que na realidade se basta em rimas cruzadas e sempre consoantes.
Vivo num país que faz parte dos 199 países que dia 14 se levantam para dizer "viva a mulher" e não "vergonha de mulher". Sugiro que todos/as o celebrem e se coloquem alguns "e se?". Por exemplo: e se não caísse na tentação de dizer à pessoa aqui ao lado "assim estás bem, fica-te bem"? É que isso pode querer dizer que antes estava mal - da mesma maneira que dizer "hoje estás particularmente elegante" não nos deixa pensar que alguma vez não estivemos bonitos/as - isso é-se, não se está. E se repetíssemos que o corpo faz parte de um conjunto mais vasto e autónomo, não sendo um vegetal que aguarda acção externa? Talvez a diferença mentalizada entre homem e mulher se tornasse não tão mais que um conjunto de diferenças corporais - sobre isso, como sobre a personalidade e o espírito activo, somos livres. Quando a soberania individual sobre o corpo for real, o abuso sexual será uma miragem longínqua. A legitimidade é uma coisa construída e temporalmente relevante; sugiro que se deslegitime a violência e que se legitime a soberania sobre o corpo. Já perdemos tempo demais.
Simone de Beauvoir (2008) O Segundo Sexo, Lisboa: Quetzal (ed. original 1949)
terça-feira, janeiro 29, 2013
Poetrindade
Há anos que não sou atingida pela bendita trindade da poesia: palavra doada, empenho e musicalidade. Um dia talvez volte lá.
A quem possa querer ir espreitando poesia portuguesa: http://portodeabrigo.do.sapo.pt/
A quem pouco conheça poesia italiana, partilho algumas palavras semi-lascivas que ainda não me permitiram que as traduzisse. São tão da língua delas que traduzi-las me parece pecado.
ti esploro, mia carne, mio oro, corpo mio, che ti spio, mia cruda carta nuda,
che ti segno, che ti sogno, con i miei seri, severi semi neri, con i miei teoremi,
i miei emblemi, che ti batto e ti sbatto, e ti ribatto, denso e duro, tra le tue fratte,
con il mio oscuro, puro latte, con le mie lente vacche, tritamente, che ti accendo,
se ti prendo, con i miei pampani di ruggine, mia fuliggine, che ti aspiro, ti respiro,
con le tue nebbie e trebbie, che ti timbro con tutti i miei timpani, con le mie dita
che ti amano, che ti arano, con la mia matita che ti colora, ti perfora, che ti adora,
mia vita, mio avaro amore amaro:
io sono qui così, la zampa del mio uccello, di quello
che ti gode e ti vigila, sono la papilla giusta che ti degusta, la pupilla che ti vibra
e ti brilla, che ti tintinna e titilla: sono un irto, un erto, un ermo ramo, io che
ti pungo, mio fungo, io che ti bramo: sono pallida pelle che si spella, mia bella, io,
passero e pettirosso del tuo fosso: io la piuma, io l'osso, che ti scrivo: io, che ti vivo:
(1., L'ultima passeggiata, 1982, Edoardo Sanguineti)
A quem possa querer ir espreitando poesia portuguesa: http://portodeabrigo.do.sapo.pt/
A quem pouco conheça poesia italiana, partilho algumas palavras semi-lascivas que ainda não me permitiram que as traduzisse. São tão da língua delas que traduzi-las me parece pecado.
ti esploro, mia carne, mio oro, corpo mio, che ti spio, mia cruda carta nuda,
che ti segno, che ti sogno, con i miei seri, severi semi neri, con i miei teoremi,
i miei emblemi, che ti batto e ti sbatto, e ti ribatto, denso e duro, tra le tue fratte,
con il mio oscuro, puro latte, con le mie lente vacche, tritamente, che ti accendo,
se ti prendo, con i miei pampani di ruggine, mia fuliggine, che ti aspiro, ti respiro,
con le tue nebbie e trebbie, che ti timbro con tutti i miei timpani, con le mie dita
che ti amano, che ti arano, con la mia matita che ti colora, ti perfora, che ti adora,
mia vita, mio avaro amore amaro:
io sono qui così, la zampa del mio uccello, di quello
che ti gode e ti vigila, sono la papilla giusta che ti degusta, la pupilla che ti vibra
e ti brilla, che ti tintinna e titilla: sono un irto, un erto, un ermo ramo, io che
ti pungo, mio fungo, io che ti bramo: sono pallida pelle che si spella, mia bella, io,
passero e pettirosso del tuo fosso: io la piuma, io l'osso, che ti scrivo: io, che ti vivo:
(1., L'ultima passeggiata, 1982, Edoardo Sanguineti)
quarta-feira, janeiro 16, 2013
Bello essere Habesha!
Caros amigos, colegas, familiares e companheiros ainda desconhecidos,
criar um filme documentário em Itália em 2012 (e produzi-lo entre Itália e Portugal) não foi o desafio mais fácil, como se pode imaginar. Mas nós (Akio Takemoto, Enrico Turci e Inês Vieira) decidimos tentá-lo apesar de tudo, sem financiamento, com pouca experiência mas com muita paixão. O resultado é "Bello essere Habesha", sobre as comunidades etíope e eritreia em Bolonha, Itália:
Decidimos não ceder aos elementos adversos que emergem inevitavelmente quando nos propomos criar um documento audiovisual. Tentamos também não ceder àquelas forças que tenderiam a pôr-nos atrás de uma secretária, a trabalhar sem gosto e com rendimentos complicados. Resumidamente, decidimos que nesta vida gostaríamos de continuar a divulgar a nossa investigação, a fazer documentários e até outros filmes; e esperamos que concordem connosco que o mundo ainda precisa destas iniciativas.
O que vos pedimos não é dinheiro (nós, "pobres idiotas"), mas simplesmente que partilhem pelas redes sociais ou por email o trailer deste documentário. Temos consciência de que possivelmente não iremos longe com a iniciativa – mas não há nada como abrir as portas das possibilidades.
Obrigado a todos e todas,
Akio, Enrico e Inês
PS – Não disponibilizamos o documentário na totalidade visto que alguns festivais e competições exigem que os documentos audiovisuais nunca tenham sido publicados; mas aos que possam estar interessados ou apenas curiosos, poderão acompanhar o nosso blog (http://belloesserehabesha.wordpress.com) ou entrar em contacto connosco (belloesserehabesha@gmail.com) para saberem como participar ou organizar projecções do documentário "Bello essere Habesha".
domingo, dezembro 30, 2012
O ano será novo,
dizem "eles". Por mim seria Farei por que seja um ano
1. de magia, em que se possa sonhar muito, dizê-lo em boa voz ou segredá-lo ternurantemente a um saquinho de sonhos, bem como procurando atirar uns pós encantados para ajudar aos sonhos de quem nos rodeia;
2. de mimos, porque sim;
3. de lealdade àquela mão cheia de amigos gigantões e de abertura para novos amigos que possam surgir, sem esquecer a tanta gente deliciosa que nos vai acompanhando;
4. de birra - entenda-se o seu nobre sentido italiano e a promessa de que continuarei a trabalhar para conseguir beber bem cerveja, acompanhada de mais saídas, se possível;
5. de crescimento, e esta quase que é batota e está cansada, vem à baila todos os anos;
6. dos clichés que fazem a vida: paz, amor, saúde e boa comida;
7. de esperança, a ver se a harmonia lúcida volta a reacompanhar tanta gente boa.
Pegue-se nos votos de cada um e faça-se por isso. Que não dure apenas uma noite, se não for esse o sonho. E, se só houver uma noite, que seja plena *
1. de magia, em que se possa sonhar muito, dizê-lo em boa voz ou segredá-lo ternurantemente a um saquinho de sonhos, bem como procurando atirar uns pós encantados para ajudar aos sonhos de quem nos rodeia;
2. de mimos, porque sim;
3. de lealdade àquela mão cheia de amigos gigantões e de abertura para novos amigos que possam surgir, sem esquecer a tanta gente deliciosa que nos vai acompanhando;
4. de birra - entenda-se o seu nobre sentido italiano e a promessa de que continuarei a trabalhar para conseguir beber bem cerveja, acompanhada de mais saídas, se possível;
5. de crescimento, e esta quase que é batota e está cansada, vem à baila todos os anos;
6. dos clichés que fazem a vida: paz, amor, saúde e boa comida;
7. de esperança, a ver se a harmonia lúcida volta a reacompanhar tanta gente boa.
Pegue-se nos votos de cada um e faça-se por isso. Que não dure apenas uma noite, se não for esse o sonho. E, se só houver uma noite, que seja plena *
quarta-feira, novembro 07, 2012
Há nomes que foram gastos
e Sara foi o primeiro. Teria feito anos em Setembro, esqueci-me pela primeira vez.
O adeus ultrapassa-nos.
O adeus ultrapassa-nos.
quinta-feira, outubro 25, 2012
Retorno
"Mãezinha, cansei-me de pessoas."
Ele andava vestido de lágrima e a mãe não conseguiu recuperar-lhe nenhuma palavra, nem uma, até que deixasse de respirar. É ingrato para uma mãe, mulher que põe um filho no mundo, luta por ele e nunca o possui. Vê que o filho se cansou de pessoas por deixar que outros o possuíssem, ou a sua sombra, ou o seu fantasma.
Deixou-se hidratar de lágrima e ali ficou, em fotossíntese. A esperança era tornar-se árvore, que antes já tentara usar as pernas para fugir e viveu muito, mas piorou. Agora que fossem pernas de raiz, esbranquiçadas, à procura de húmus.
Mas as suas pernas escuras queimavam-se sempre que as enfiava na terra amarelada. Não tanto como no deserto, é certo, mas queimavam. A terra já se divorciara da água há algum tempo. E ele só chorava frente à mãe e ao Deus a que rezava. Quando teve de atravessar o deserto foi o tempo todo a falar com Deus. Quase dois anos, atravessava o deserto, trabalhava na cidade, chegava ao mar e traziam-no de volta para o deserto, onde voltava a seguir os cadáveres para ter a certeza do caminho até ao paraíso.
E um dia lá chegou ao paraíso, foi preso, viveu na rua, depois numa cave, trabalhou sempre à noite e lá conseguiu pagar um quarto. Ali não passava fome de entranhas mas sim fome de coisa humana. Fazia o que podia para esquecer: bebia, alucinava-se ligeiramente, olhava infinitamente a estrada, gastava o que ganhasse no jogo. Vivera melhor em África, mas não podia regressar de mãos vazias. Faltava-lhe a mãe, porra. Era a mãe que conseguia inventar sempre o que pôr no prato de cada um dos nove filhos, mesmo sem ter nada. Nem que fosse pão com farinha de grãos cozida, jejum permanente, mas não lhes ensinou o significado de fome. Ensinou-os a não se habituarem a comer.
Ele aprendeu a fome e o hábito na Europa. Diziam-lhe sempre que ele era do país dos que tinham fome, coitadinho. E ele queria abaná-los e dizer que no seu país havia mais que fome, que a crença dos coitadinhos não os ajudava, que o dinheiro que lhes mandavam para a comida ia para as armas e que as armas sempre em riste eram o verdadeiro problema. Um problema que vinha da luta para mandar mais e ter mais terras que o primo do lado, do norte ou do sul. Havia sempre problema. Mas ali ele tinha sido mais feliz.
Juntou uns trocos e voltou. Queria dar à mãe o que conseguira, essa mãe cujo colo tanto lhe faltou, passou tantas horas a pensar no seu cheiro a farinha e malagueta para acalmar os tempos piores. Mas eram poucos trocos e quem mais lá estava desprezou-o. Tinham investido muito na sua viagem e ele só trazia cabelos brancos, desânimo e três tostões. Envergonhou-se. Não era este o seu sonho, mas também já não sabia o que era sonhar. No deserto, enquanto falava ininterruptamente com Deus, passou à descrença na vida boa; só queria sobreviver. Sempre e a cada momento. Pensar demais fazia mal, sonhar e ver o sonho-morto ainda pior. Preferia olhar o tempo, gozar com ele, passá-lo e vitoriar-se disso. Até que se cansou e voltou para África.
E ninguém o aceitou, só a mãe. Mas a mãe diluía-se nas suas lágrimas, ela que também se fartara de pessoas, mas não dos seus filhos. Ela que lhe contava história após cantiga para o animar - mesmo no sentido de lhe voltar a dar alma -, mas há voltas que conduzem mesmo ao cansaço profundo. Ele cansara-se de pessoas. Viveu o resto do tempo a olhar o sol pôr-se na terra amarela onde as árvores já não vingavam. E olhava o tempo, gozava com ele, passava-o sem que conseguisse vitoriar-se de coisa alguma.
Ele andava vestido de lágrima e a mãe não conseguiu recuperar-lhe nenhuma palavra, nem uma, até que deixasse de respirar. É ingrato para uma mãe, mulher que põe um filho no mundo, luta por ele e nunca o possui. Vê que o filho se cansou de pessoas por deixar que outros o possuíssem, ou a sua sombra, ou o seu fantasma.
Deixou-se hidratar de lágrima e ali ficou, em fotossíntese. A esperança era tornar-se árvore, que antes já tentara usar as pernas para fugir e viveu muito, mas piorou. Agora que fossem pernas de raiz, esbranquiçadas, à procura de húmus.
Mas as suas pernas escuras queimavam-se sempre que as enfiava na terra amarelada. Não tanto como no deserto, é certo, mas queimavam. A terra já se divorciara da água há algum tempo. E ele só chorava frente à mãe e ao Deus a que rezava. Quando teve de atravessar o deserto foi o tempo todo a falar com Deus. Quase dois anos, atravessava o deserto, trabalhava na cidade, chegava ao mar e traziam-no de volta para o deserto, onde voltava a seguir os cadáveres para ter a certeza do caminho até ao paraíso.
E um dia lá chegou ao paraíso, foi preso, viveu na rua, depois numa cave, trabalhou sempre à noite e lá conseguiu pagar um quarto. Ali não passava fome de entranhas mas sim fome de coisa humana. Fazia o que podia para esquecer: bebia, alucinava-se ligeiramente, olhava infinitamente a estrada, gastava o que ganhasse no jogo. Vivera melhor em África, mas não podia regressar de mãos vazias. Faltava-lhe a mãe, porra. Era a mãe que conseguia inventar sempre o que pôr no prato de cada um dos nove filhos, mesmo sem ter nada. Nem que fosse pão com farinha de grãos cozida, jejum permanente, mas não lhes ensinou o significado de fome. Ensinou-os a não se habituarem a comer.
Ele aprendeu a fome e o hábito na Europa. Diziam-lhe sempre que ele era do país dos que tinham fome, coitadinho. E ele queria abaná-los e dizer que no seu país havia mais que fome, que a crença dos coitadinhos não os ajudava, que o dinheiro que lhes mandavam para a comida ia para as armas e que as armas sempre em riste eram o verdadeiro problema. Um problema que vinha da luta para mandar mais e ter mais terras que o primo do lado, do norte ou do sul. Havia sempre problema. Mas ali ele tinha sido mais feliz.
Juntou uns trocos e voltou. Queria dar à mãe o que conseguira, essa mãe cujo colo tanto lhe faltou, passou tantas horas a pensar no seu cheiro a farinha e malagueta para acalmar os tempos piores. Mas eram poucos trocos e quem mais lá estava desprezou-o. Tinham investido muito na sua viagem e ele só trazia cabelos brancos, desânimo e três tostões. Envergonhou-se. Não era este o seu sonho, mas também já não sabia o que era sonhar. No deserto, enquanto falava ininterruptamente com Deus, passou à descrença na vida boa; só queria sobreviver. Sempre e a cada momento. Pensar demais fazia mal, sonhar e ver o sonho-morto ainda pior. Preferia olhar o tempo, gozar com ele, passá-lo e vitoriar-se disso. Até que se cansou e voltou para África.
E ninguém o aceitou, só a mãe. Mas a mãe diluía-se nas suas lágrimas, ela que também se fartara de pessoas, mas não dos seus filhos. Ela que lhe contava história após cantiga para o animar - mesmo no sentido de lhe voltar a dar alma -, mas há voltas que conduzem mesmo ao cansaço profundo. Ele cansara-se de pessoas. Viveu o resto do tempo a olhar o sol pôr-se na terra amarela onde as árvores já não vingavam. E olhava o tempo, gozava com ele, passava-o sem que conseguisse vitoriar-se de coisa alguma.
sexta-feira, julho 13, 2012
Sexta-feira treze
Mas hoje é uma sexta-feira treze especial. Porque hoje faz anos que, numa terça-feira treze de mil novecentos e cinquenta e quatro, a Frida Kahlo morreu. Nesse mesmo dia abençoado pelo génio da força, entre cores fortes, o meu pai nasceu.
Foi numa casa pequenina das ruas do Porto que a avó o trouxe à luz. Tê-lo-á tido entre lençóis brancos, dias quentes e sorrisos de bebé novo nas carinhas dos cinco irmãos. Criou-o na força dos seus braços e no amor dos seus gestos, nutrindo-o de maravilhas cozinhadas em lume brando num pote de ferro.
Fez treze anos numa sexta-feira treze e nesse dia bateu com a cabeça numa esquina enquanto levava um dos recados de que era moço. Depois disso, foi moço de muitas outras coisas. Sobretudo de paixões e encantos. É de substância musical e a viagem também lhe corre nas veias.
Foi sentindo necessidade de aumentar a alma com gargalhadas de puxar a lágrima, pelo que vamos sabendo que de vez em quando os sinais de trânsito se trocavam nas ruas do Porto e que alguém delirava de contentamento ao ver as expressões atónitas dos transeuntes, sentado num café de esquina ao romper do dia. Noutros dias acompanhava a claque do Salgueiros aos jogos fora, mas em geral os desgraçados jogavam enquanto eles discutiam prognósticos e gargalhavam no café ali à beira.
A alma também cresce na luta e no amor, e em ambos tem conduzido uma vida muito grande. E eu sou simplesmente uma aluna meio desatenta que ainda tem muito a aprender, à qual as palavras fogem quando é para falar do maior pai. Mas as palavras vieram em grande parte dele, quando me ensinava as músicas do Zeca que ainda hoje dão sentido aos dias que o não têm. Também me ensinou a harmonia, fazendo-nos cantar a duas vozes. Ensinou a pertinência de alguma loucura e de encarar o difícil com força no coração, humor na cabeça e um sorriso acolhedor nos olhos.
Entre muitas outras coisas. Não está ao alcance do comum dos mortais experimentar os limites da humanidade, girar o mundo e sonhá-lo de novo, despir a camisa por quem mal se conhece e nutrir os amigos de alma com o melhor pão e o melhor vinho.
A gente pega na vida com mão firme e nunca se esquece que há sempre mais linhas por escrever. Uma infinidade de palavras, mesmo até ao infinito, dá-se uma curva e continua. Que há muita gente a querer escrever pouquinhas linhas, e talvez por isso o mundo se não tombe.
Parabéns, môr!
quarta-feira, junho 06, 2012
Someday (ou as noites em que se salva a vida)
Dezembro de 2002. Os dias andavam ásperos de preocupação. Desenhava o medo no Hospital de S. João e a incapacidade de tirar a dor na Ordem de S. Francisco. Ria-me estupidamente do sofrimento de quem não sofria o mesmo, o que acabou por assustar os colegas, amigos e professores que só nas vésperas perceberam. Havia um coração que não cabia em si e tinha de ser reparado. Um coração que me era muito próximo, e eu tremia muito. Todos tentaram preparar-me para aceitar não saber o que aconteceria; médicos, professores e família explicaram o ponto da incerteza. Operar era um risco grande, não operar seria um fim antecipado. Nessa noite, pela primeira vez, a minha mãe pediu-me para não ficar em casa.
Tinha-lhe ligado pouco antes, a minha Cenoura - tinha cabelos vermelhos e dava muita energia - pôs-se à estrada e veio ter comigo ao Porto. Infiltrámo-nos na casa da nossa eterna Animadora, que morava numa república da R. Miguel Bombarda, em frente a um café fogoso. Nessa noite elas salvaram-me a vida (obrigada*), e o coração pelo qual tremia também foi salvo.
Nunca sei ao certo a ordem dos factores e alguns episódios já tiveram de me ser recordados pela Cenoura, mas creio que começámos pela invasão de outros quartos da república. Começámos quase de certeza por falar muito e incessantemente, até termos menos fome de palavras e mais fome de comida. Depois saímos e fomos ter à reitoria. Ali funcionava a cantina universitária, onde regra geral se comia baratinho, desde que se jantasse cedo... Mas nesse dia estava ocupada. Festejava-se o natal entre pais e crianças, com os quais metemos conversa e junto dos quais jantámos. Não pagámos um tostão e seguimos para outra meta: festa flower power dos estudantes de arquitectura da Universidade do Porto.
A Animadora era estudante de arquitectura, mas de outro sítio; a Cenoura estaria no primeiro ano de sociologia, se não erro as contas; e eu a meio do ensino secundário. Ora bem, encenemos: uma flor aqui e ali, no cabelo e na roupa, e entramos a dançar. "Quando nos perguntarem, dizemos que sim!", e dissemos sempre que sim, éramos sem dúvida estudantes de arquitectura. Os Strokes estavam sintonizados e deixaram-nos saltar muito, antes ainda de os saltos serem induzidos. Era uma festa universitária com algum álcool disponível, houve quem nos oferecesse e o resto foi com a poupança do jantar. Era maravilhosa a nossa inocência junto daqueles grandes todos, e rimos mesmo de ânimo pleno quando à pergunta "Tens tabaco?" foi respondido "E também tenho pulmão!"
Saímos de lá tão suadas como se fosse uma noite de verão, e ainda tínhamos energia. Caminhámos na direcção da Ribeira, onde alguma coisa deveria estar aberta. Ríamo-nos muito e falávamos alto, tentando passar a euforia para quem mais fosse transeunte ou residente. Fomos dar a um bar com karaoke, onde sintonizei na cuba livre, que me deixou cantar uma, e outra, e mais outra, até fazer dueto com o rasta lá do sítio, se não me engano cantámos Bob Marley, No woman, no cry. Éramos nós e nós a cantar, ele acabou por vir para a nossa mesa e nós-meninas acabámos por perceber que os nossos corpos já estavam a precisar de outro repouso. Seguimos a pé para a R. Miguel Bombarda e só não vimos o nascer do sol porque estávamos próximas do dia mais curto do ano, e chovia.
A chuva foi lavando a cuba livre e o que mais tivesse bebido para saltar. Já não conseguia dizer uma palavra, felizmente elas estavam cansadas e foram dormir. De manhã deixámos a Animadora em modo de sono, a Cenoura voltou de transporte público para Lisboa e eu segui para o hospital. Estava tudo bem, entrei e desmaiei. Duas vezes, mas pelo menos acordava a ouvir Bob Marley e a responder a "Qual é o teu nome, Ana?" com "Inês!". Nos cuidados intensivos devo ter ouvido as palavras erradas, confundida das ideias. Calhei no lado mais pontiagudo, o lado mais sensível, o lado do coração salvo.
In many ways, they'll miss the good old days
Someday, someday
(Someday, The Strokes)
Tinha-lhe ligado pouco antes, a minha Cenoura - tinha cabelos vermelhos e dava muita energia - pôs-se à estrada e veio ter comigo ao Porto. Infiltrámo-nos na casa da nossa eterna Animadora, que morava numa república da R. Miguel Bombarda, em frente a um café fogoso. Nessa noite elas salvaram-me a vida (obrigada*), e o coração pelo qual tremia também foi salvo.
Nunca sei ao certo a ordem dos factores e alguns episódios já tiveram de me ser recordados pela Cenoura, mas creio que começámos pela invasão de outros quartos da república. Começámos quase de certeza por falar muito e incessantemente, até termos menos fome de palavras e mais fome de comida. Depois saímos e fomos ter à reitoria. Ali funcionava a cantina universitária, onde regra geral se comia baratinho, desde que se jantasse cedo... Mas nesse dia estava ocupada. Festejava-se o natal entre pais e crianças, com os quais metemos conversa e junto dos quais jantámos. Não pagámos um tostão e seguimos para outra meta: festa flower power dos estudantes de arquitectura da Universidade do Porto.
A Animadora era estudante de arquitectura, mas de outro sítio; a Cenoura estaria no primeiro ano de sociologia, se não erro as contas; e eu a meio do ensino secundário. Ora bem, encenemos: uma flor aqui e ali, no cabelo e na roupa, e entramos a dançar. "Quando nos perguntarem, dizemos que sim!", e dissemos sempre que sim, éramos sem dúvida estudantes de arquitectura. Os Strokes estavam sintonizados e deixaram-nos saltar muito, antes ainda de os saltos serem induzidos. Era uma festa universitária com algum álcool disponível, houve quem nos oferecesse e o resto foi com a poupança do jantar. Era maravilhosa a nossa inocência junto daqueles grandes todos, e rimos mesmo de ânimo pleno quando à pergunta "Tens tabaco?" foi respondido "E também tenho pulmão!"
Saímos de lá tão suadas como se fosse uma noite de verão, e ainda tínhamos energia. Caminhámos na direcção da Ribeira, onde alguma coisa deveria estar aberta. Ríamo-nos muito e falávamos alto, tentando passar a euforia para quem mais fosse transeunte ou residente. Fomos dar a um bar com karaoke, onde sintonizei na cuba livre, que me deixou cantar uma, e outra, e mais outra, até fazer dueto com o rasta lá do sítio, se não me engano cantámos Bob Marley, No woman, no cry. Éramos nós e nós a cantar, ele acabou por vir para a nossa mesa e nós-meninas acabámos por perceber que os nossos corpos já estavam a precisar de outro repouso. Seguimos a pé para a R. Miguel Bombarda e só não vimos o nascer do sol porque estávamos próximas do dia mais curto do ano, e chovia.
A chuva foi lavando a cuba livre e o que mais tivesse bebido para saltar. Já não conseguia dizer uma palavra, felizmente elas estavam cansadas e foram dormir. De manhã deixámos a Animadora em modo de sono, a Cenoura voltou de transporte público para Lisboa e eu segui para o hospital. Estava tudo bem, entrei e desmaiei. Duas vezes, mas pelo menos acordava a ouvir Bob Marley e a responder a "Qual é o teu nome, Ana?" com "Inês!". Nos cuidados intensivos devo ter ouvido as palavras erradas, confundida das ideias. Calhei no lado mais pontiagudo, o lado mais sensível, o lado do coração salvo.
In many ways, they'll miss the good old days
Someday, someday
(Someday, The Strokes)
domingo, maio 27, 2012
Gulliat e o meu moró
Porque os cães também ocupam um lugar muito importante na memória das pessoas. Até daquelas que nunca tiveram um cão, como eu. E aqui, mais uma vez, poderia contar um sem-número de histórias. Aprender a andar agarrada à cauda do Leão, fazer de conta que a Afrodite era minha, fazer de lobo com o Príncipe, dormir com o Rollie como cobertor, receber a patinha da Maria como pedido de desculpa por me ter ladrado, ser recebida pela Kika como se fosse a raínha do quintal... Mas nas restantes não aparece o meu moró ("morosó de las minhas bideirinhas, de los meus coraçons sagrados de lo bu, muah! 'té 'manhã, moró!"), e dado o carácter imbatível deste título, conto uma história do Gulliat.
Nos idos de 1993, pelos meus 7 anos, fomos a França. O que agora é uma viagem rápida de low cost, na altura era uma viagem longa de Citröen AX, repleta de estações e apeadeiros. E creio que nunca saberei quão mais longa se tornava com a minha questão perene - "Quantos quilómetros faltam?" - desde a primeira curva até estacionarmos o carro de vez. Fomos visitar a família emigrante em França, com direito a campismo em Saint-Jean-de-Luz, Disney em Paris, Parc Astérix em Plailly, Futuroscope em Poitiers... Dá para imaginar?
Foi uma viagem inesquecível. Tivemos direito a tudo: calor alucinante que nos fazia atravessar muitas vezes a porta de água do Asterix, chuva diabólica nos jardins de Versailles, trovoada que parou o simulador do Futuroscope na posição em que o senhor ia a cair do comboio, ardor febril de uma picada de abelha e de uma bola-de-berlim estragada, e nada, rigorosamente nada, escureceu a deliciosa memória desses dias. Tivemos alguns almoços e jantaradas com família e amigos que não falavam minimamente a mesma língua que eu. Nessas alturas falava com os cães, ou então entretinha-me sozinha a cantarolar a música do parque de telecomunicações da Disney, que me fez chorar de alegria pela primeira vez.
Se a memória não me engana, nos últimos dias de viagem fomos todos para a casa do bosque, onde vivia uma prima. Os morós e os tios de Sintra também lá estavam, e éramos imensos para o espaço incrivelmente pequeno daquela casa. Mas cabíamos todos, como sempre, nesta família. O habitante mais fascinante era o Gulliat. Substancialmente maior que eu, era um pastor alemão adulto, bem ensinado, e conseguiu em poucos minutos tirar-nos o medo de bixos daquela envergadura.
- Gulliat, assis toi.
E ele sentava-se, obediente à dona, que nem tinha de o repetir. Por vezes deitava-se, suspirava e chorava dois segundos, para que percebêssemos que não se importaria por nada deste mundo de participar connosco na refeição. A dona abria os olhos na sua direcção, ele punha a pata sobre o focinho e ficava em silêncio.
A dona era uma pessoa muito assertiva e pragmática. Em dia ruim, levava o mundo à frente - e, mesmo assim, conseguia chegar a horas ao trabalho. Tivemos a honra de presenciar um desses dias, no qual a chave ficou presa na porta, do lado de fora, quando ia a sair de manhã. O Gulliat tinha uma casota bem fornecida, designadamente de ferramentas. A dona foi ter com ele, pegou num martelo, martelou a fechadura até cair, entrou em casa, pegou numa rolha e colocou-a no lugar da fechadura.
- Gulliat, la maison - e ele ficou a guardar a casa, obviamente, e ninguém tentou entrar.
No último dia, o meu moró foi brincar com o Gulliat. O moró lançava uma bola pequenita e o Gulliat apanhava-a, ora no ar ora na terra, e voltava a trazer para que continuasse o jogo. Corria, saltava e esperava com as patas dianteiras no chão e as patas traseiras esticadas, a desafiar o moró, que se ria com satisfação.
As malas já estavam todas nos carros e o Gulliat decidiu incluir outros parceiros na brincadeira. Levou a bola uma vez a cada um que partiria. Não perdia o fulgor em cada viagem; levava a bola, pedia que a lançasse, recolhia-a em movimento, corria de volta, levava ao seguinte...
Por último, levou a bola ao meu moró. Ele lançou-a, o Gulliat observou a sua trajectória, viu onde caiu e sentou-se. Não sei ao certo se quem chorou foi o Gulliat ou o moró. O cão ficou sentado, a observar o carro que partia, e nunca nos vamos esquecer do silêncio desse minuto.
Nos idos de 1993, pelos meus 7 anos, fomos a França. O que agora é uma viagem rápida de low cost, na altura era uma viagem longa de Citröen AX, repleta de estações e apeadeiros. E creio que nunca saberei quão mais longa se tornava com a minha questão perene - "Quantos quilómetros faltam?" - desde a primeira curva até estacionarmos o carro de vez. Fomos visitar a família emigrante em França, com direito a campismo em Saint-Jean-de-Luz, Disney em Paris, Parc Astérix em Plailly, Futuroscope em Poitiers... Dá para imaginar?
Foi uma viagem inesquecível. Tivemos direito a tudo: calor alucinante que nos fazia atravessar muitas vezes a porta de água do Asterix, chuva diabólica nos jardins de Versailles, trovoada que parou o simulador do Futuroscope na posição em que o senhor ia a cair do comboio, ardor febril de uma picada de abelha e de uma bola-de-berlim estragada, e nada, rigorosamente nada, escureceu a deliciosa memória desses dias. Tivemos alguns almoços e jantaradas com família e amigos que não falavam minimamente a mesma língua que eu. Nessas alturas falava com os cães, ou então entretinha-me sozinha a cantarolar a música do parque de telecomunicações da Disney, que me fez chorar de alegria pela primeira vez.
Se a memória não me engana, nos últimos dias de viagem fomos todos para a casa do bosque, onde vivia uma prima. Os morós e os tios de Sintra também lá estavam, e éramos imensos para o espaço incrivelmente pequeno daquela casa. Mas cabíamos todos, como sempre, nesta família. O habitante mais fascinante era o Gulliat. Substancialmente maior que eu, era um pastor alemão adulto, bem ensinado, e conseguiu em poucos minutos tirar-nos o medo de bixos daquela envergadura.
- Gulliat, assis toi.
E ele sentava-se, obediente à dona, que nem tinha de o repetir. Por vezes deitava-se, suspirava e chorava dois segundos, para que percebêssemos que não se importaria por nada deste mundo de participar connosco na refeição. A dona abria os olhos na sua direcção, ele punha a pata sobre o focinho e ficava em silêncio.
A dona era uma pessoa muito assertiva e pragmática. Em dia ruim, levava o mundo à frente - e, mesmo assim, conseguia chegar a horas ao trabalho. Tivemos a honra de presenciar um desses dias, no qual a chave ficou presa na porta, do lado de fora, quando ia a sair de manhã. O Gulliat tinha uma casota bem fornecida, designadamente de ferramentas. A dona foi ter com ele, pegou num martelo, martelou a fechadura até cair, entrou em casa, pegou numa rolha e colocou-a no lugar da fechadura.
- Gulliat, la maison - e ele ficou a guardar a casa, obviamente, e ninguém tentou entrar.
No último dia, o meu moró foi brincar com o Gulliat. O moró lançava uma bola pequenita e o Gulliat apanhava-a, ora no ar ora na terra, e voltava a trazer para que continuasse o jogo. Corria, saltava e esperava com as patas dianteiras no chão e as patas traseiras esticadas, a desafiar o moró, que se ria com satisfação.
As malas já estavam todas nos carros e o Gulliat decidiu incluir outros parceiros na brincadeira. Levou a bola uma vez a cada um que partiria. Não perdia o fulgor em cada viagem; levava a bola, pedia que a lançasse, recolhia-a em movimento, corria de volta, levava ao seguinte...
Por último, levou a bola ao meu moró. Ele lançou-a, o Gulliat observou a sua trajectória, viu onde caiu e sentou-se. Não sei ao certo se quem chorou foi o Gulliat ou o moró. O cão ficou sentado, a observar o carro que partia, e nunca nos vamos esquecer do silêncio desse minuto.
segunda-feira, maio 14, 2012
Aprender o inferno na ponta da língua
Nem todos nascemos de sangue cómico. O que não quer dizer que não sejamos atraídos pela comédia quotidiana ou esporádica, só que não sai bem pelas palavras. Penso em especial naquela comédia mais lasciva. Há pessoas particularmente dotadas para o efeito, nas quais palavras infernais soam a pão com doce e pimenta, a chocolate com piri-piri. Houve quem tivesse tentado ensinar-me.
É um bocadinho desgustoso ser do Porto e não conseguir pronunciar correctamente "Ide, ide com a Nossa Senhora do Espanto meus filhos, ide com o caralho!", frase que tanto nos faz rir nos almoços de Domingo. Ou então quando falo com um caro amigo do coração, pergunto se ainda gosta de mim e tenho direito a cinco minutinhos sem quebra de bom palavreado, finalizado por "gosto mais de ti do que de quase todas as pessoas no mundo, porra!" e nunca saber responder à letra.
Pimenta na ponta da língua, uma das lições correntes na minha geração. Creio só ter experimentado uma vez, na escola, após uma saída mais bombástica. Em casa ensinaram-me a não ser pobre de espírito através da língua, mas confesso que sinto uma riqueza enorme em quem sabe verdadeiramente falar mal!
Há uma casa desabitada à qual sorrio de cada vez que faço a viagem entre Lisboa e Porto de comboio. É uma casa de muita memória e de saudade. Aí tive a minha primeira professora de língua do inferno.
- Pronto, os teus pais já foram embora. Agora diz-me todas as asneiras que já aprendeste.
Eu ficava terrivelmente envergonhada e não conseguia falar.
- Se não mas disseres não faço bolo de ananás.
Este era um ponto particularmente sensível. Aquele bolo de ananás e caramelo era divinal. Era um pedaço de céu no inferno que me pedia. Um deveria compensar o outro.
- E se disser, fazes bolo de ananás, batatas fritas e ovo estrelado?
- Diz primeiro, para ver se mereces!
E eu dizia, começava baixinho e ia subindo de tom em consonância com as suas gargalhadas largas, que ocupavam toda a casa e chamavam os animais. Era uma delícia: cães, gatos, asneiras, risos, bolos e fritos, entre outros mimos. O paraíso de uma criança bem regradinha.
- Olha que tu não tens vida para isso, filha. Estudas muito, vais à missa, vais à música e não aparvalhas. Uma pessoa tem de dizer e fazer umas caralhadas para continuar saudável - dir-me-ia alguns anos depois. E punha o rádio a tocar bem alto, ria-se do berro imediato de um vizinho e servia-me outra fatia de bolo de ananás.
Não fui a tempo de lhe contar uma ou outra aprendizagem do inferno. Infernizei particularmente no ano em que morreu. Acredito que ficaria orgulhosa se me visse em palco vestida de sevilhana, a arregaçar a saia e simular que urinava, a lutar com um gancho de cabelo, a fumar sem escrúpulos e a dizer que, naquela situação, uma mulher "agarra o touro pelos cornos, puxa pelos ovários e manda tudo para o caralho!" (1)
(1) Antonio Onetti (2003) A Rua do Inferno, Livrinhos de Teatro.
É um bocadinho desgustoso ser do Porto e não conseguir pronunciar correctamente "Ide, ide com a Nossa Senhora do Espanto meus filhos, ide com o caralho!", frase que tanto nos faz rir nos almoços de Domingo. Ou então quando falo com um caro amigo do coração, pergunto se ainda gosta de mim e tenho direito a cinco minutinhos sem quebra de bom palavreado, finalizado por "gosto mais de ti do que de quase todas as pessoas no mundo, porra!" e nunca saber responder à letra.
Pimenta na ponta da língua, uma das lições correntes na minha geração. Creio só ter experimentado uma vez, na escola, após uma saída mais bombástica. Em casa ensinaram-me a não ser pobre de espírito através da língua, mas confesso que sinto uma riqueza enorme em quem sabe verdadeiramente falar mal!
Há uma casa desabitada à qual sorrio de cada vez que faço a viagem entre Lisboa e Porto de comboio. É uma casa de muita memória e de saudade. Aí tive a minha primeira professora de língua do inferno.
- Pronto, os teus pais já foram embora. Agora diz-me todas as asneiras que já aprendeste.
Eu ficava terrivelmente envergonhada e não conseguia falar.
- Se não mas disseres não faço bolo de ananás.
Este era um ponto particularmente sensível. Aquele bolo de ananás e caramelo era divinal. Era um pedaço de céu no inferno que me pedia. Um deveria compensar o outro.
- E se disser, fazes bolo de ananás, batatas fritas e ovo estrelado?
- Diz primeiro, para ver se mereces!
E eu dizia, começava baixinho e ia subindo de tom em consonância com as suas gargalhadas largas, que ocupavam toda a casa e chamavam os animais. Era uma delícia: cães, gatos, asneiras, risos, bolos e fritos, entre outros mimos. O paraíso de uma criança bem regradinha.
- Olha que tu não tens vida para isso, filha. Estudas muito, vais à missa, vais à música e não aparvalhas. Uma pessoa tem de dizer e fazer umas caralhadas para continuar saudável - dir-me-ia alguns anos depois. E punha o rádio a tocar bem alto, ria-se do berro imediato de um vizinho e servia-me outra fatia de bolo de ananás.
Não fui a tempo de lhe contar uma ou outra aprendizagem do inferno. Infernizei particularmente no ano em que morreu. Acredito que ficaria orgulhosa se me visse em palco vestida de sevilhana, a arregaçar a saia e simular que urinava, a lutar com um gancho de cabelo, a fumar sem escrúpulos e a dizer que, naquela situação, uma mulher "agarra o touro pelos cornos, puxa pelos ovários e manda tudo para o caralho!" (1)
(1) Antonio Onetti (2003) A Rua do Inferno, Livrinhos de Teatro.
domingo, maio 13, 2012
Não falemos mal dos gatos
Muito se ouve falar dos gatos, do seu espírito independente, do seu temperamento variável, da humanidade que neles projectamos. O facto de escaparem terna e irritantemente do nosso controlo torna-os dignos de uma infinitude de histórias.
No meu baú há muitas histórias ouvidas tendo os gatos como protagonistas. Gatos que ocupam casas, gatos que criticam falhas musicais, gatos que se entregam à morte distantes dos donos, até aqueles que optam pela morte com a morte dos donos. Gatos que pedem para abrir torneiras e assim bebem água fresca, gatos que vagueiam entre sacos, livros e malas de carros, gatos-amuleto, gatos vadios que trazem amigos para o quintal. Há uma infinidade de histórias possíveis, mas a que conto agora é uma das mais antigas que conheço.
Recuemos, no Porto, à década de 1940. A zona do Largo de Mompilher, nessa altura, seria possivelmente tão escurecida como hoje, mas também sem grandes dúvidas muito mais habitada. Em 2008 ainda havia, só na freguesia de Cedofeita, cerca de 180 ilhas activas; não sei se podemos imaginar quantas seriam, sete décadas antes. Uma ilha, para quem possa não estar familiarizado com o termo, é uma espécie de (parafraseando a avó) "condomínio fechado". Um portão (ou mesmo uma entrada aberta) daria acesso a um tipo de corredor, com uma sucessão de portas (cada uma com direito a uma média de duas divisões, incluindo cozinha) e, no final da sua extensão, uma casa de banho partilhada pelos "condóminos". Devemos acrescentar que atrás de cada porta habitava uma família, regra geral composta por uma mãe, um pai e vários filhos.
Numa das muitas ilhas próximas ao Largo de Mompilher vivia a família de onde provém esta história. Primavam, entre outros atributos, pela capacidade de multiplicação: numa cama individual caberiam facilmente três filhas mais ou menos coetâneas, numa outra o catraio mais fugidio e o pequenote ficava próximo dos pais.
Alguns princípios de manutenção desta situação de vida foram passando entre gerações. Destaque-se o brio, particularmente na cozinha-sala, mas também a capacidade de inventar soluções com o pouco que se tivesse à mão. Uma mão de farinha, um baldinho de água, um pedaço de bacalhau e alguma salsa fariam um banquete de pataniscas. O óleo em que eram fritas saciava mais rapidamente, atributo necessário nos dias que corriam. As crianças trabalhavam, bem como os pais, o que não significava necessariamente a quantidade de escudos suficiente para pôr comida na mesa.
Num dia de desespero, a gata apareceu. Deambulava pelo seu longo espaço condominial, parava onde a recebessem amavelmente (e que gato recusaria um pratinho de espinhas?), naquele dia parou ali. Parou no dia errado para o mimo humano. Reconchegou-se no colo da mãe, que chorava. Caíam lágrimas após suspiros, angústias após lágrimas e nada a consolava. Acariciava o pêlo da gata, evitaria a todo o custo fazer-lhe mal. Não seria a primeira a fazer passar gato por lebre, mas não era capaz. Nem os seus filhos mereciam ficar sem comer. Continuava a chorar e a gata saiu.
Voltou pouco tempo mais tarde. Na boca, ferrada e suspensa como se fosse seu filho, trazia uma pescada intacta e fresca, que roubara à peixeira. Deixou-a no balcão da cozinha e saiu.
Não falemos mal dos gatos, por favor.
No meu baú há muitas histórias ouvidas tendo os gatos como protagonistas. Gatos que ocupam casas, gatos que criticam falhas musicais, gatos que se entregam à morte distantes dos donos, até aqueles que optam pela morte com a morte dos donos. Gatos que pedem para abrir torneiras e assim bebem água fresca, gatos que vagueiam entre sacos, livros e malas de carros, gatos-amuleto, gatos vadios que trazem amigos para o quintal. Há uma infinidade de histórias possíveis, mas a que conto agora é uma das mais antigas que conheço.
Recuemos, no Porto, à década de 1940. A zona do Largo de Mompilher, nessa altura, seria possivelmente tão escurecida como hoje, mas também sem grandes dúvidas muito mais habitada. Em 2008 ainda havia, só na freguesia de Cedofeita, cerca de 180 ilhas activas; não sei se podemos imaginar quantas seriam, sete décadas antes. Uma ilha, para quem possa não estar familiarizado com o termo, é uma espécie de (parafraseando a avó) "condomínio fechado". Um portão (ou mesmo uma entrada aberta) daria acesso a um tipo de corredor, com uma sucessão de portas (cada uma com direito a uma média de duas divisões, incluindo cozinha) e, no final da sua extensão, uma casa de banho partilhada pelos "condóminos". Devemos acrescentar que atrás de cada porta habitava uma família, regra geral composta por uma mãe, um pai e vários filhos.
Numa das muitas ilhas próximas ao Largo de Mompilher vivia a família de onde provém esta história. Primavam, entre outros atributos, pela capacidade de multiplicação: numa cama individual caberiam facilmente três filhas mais ou menos coetâneas, numa outra o catraio mais fugidio e o pequenote ficava próximo dos pais.
Alguns princípios de manutenção desta situação de vida foram passando entre gerações. Destaque-se o brio, particularmente na cozinha-sala, mas também a capacidade de inventar soluções com o pouco que se tivesse à mão. Uma mão de farinha, um baldinho de água, um pedaço de bacalhau e alguma salsa fariam um banquete de pataniscas. O óleo em que eram fritas saciava mais rapidamente, atributo necessário nos dias que corriam. As crianças trabalhavam, bem como os pais, o que não significava necessariamente a quantidade de escudos suficiente para pôr comida na mesa.
Num dia de desespero, a gata apareceu. Deambulava pelo seu longo espaço condominial, parava onde a recebessem amavelmente (e que gato recusaria um pratinho de espinhas?), naquele dia parou ali. Parou no dia errado para o mimo humano. Reconchegou-se no colo da mãe, que chorava. Caíam lágrimas após suspiros, angústias após lágrimas e nada a consolava. Acariciava o pêlo da gata, evitaria a todo o custo fazer-lhe mal. Não seria a primeira a fazer passar gato por lebre, mas não era capaz. Nem os seus filhos mereciam ficar sem comer. Continuava a chorar e a gata saiu.
Voltou pouco tempo mais tarde. Na boca, ferrada e suspensa como se fosse seu filho, trazia uma pescada intacta e fresca, que roubara à peixeira. Deixou-a no balcão da cozinha e saiu.
Não falemos mal dos gatos, por favor.
sábado, maio 12, 2012
Histórias pequeninas em Pilastro
Havia um pedacinho de rio nos seus olhos. De um rio turvo, muitas vezes agitado, mais forte que o seu corpinho de quatro anos. Todos os seus companheiros de sala tinham aquela idade, mas mais nenhum vivia com tamanho rio tortuoso dentro dos olhos. Filippo era capaz de fazer todos os exercícios possíveis e imaginários, respondia com astúcia às educadoras e ensinava aos colegas aquilo que pudessem ainda não ter aprendido. Depois fechava-se com o seu rio por tempos variáveis, ora uns minutos ora a manhã inteira, e todo ele era agressivo e tortuoso.
Um dia abordou-me, com uma folha e canetas para colorir, pedindo para se sentar à minha beira. Enquanto desenhava ia-me observando (já me observava há cerca de um mês). Verde e castanho, um pouco de azul escuro.
- Posso contar-te uma história?
- Sou toda ouvidos.
- Este é o meu pai, na pesca. Eu e o meu irmão gostávamos muito de ir à pesca com ele. Há dois meses que não o fazemos. O meu pai suicidou-se há dois meses, e faz-me falta. Por isso é que desenho as coisas que gostava de fazer com ele.
Continua compenetrado na sua tarefa, em silêncio. Pouco depois, ao ver que Dhael não consegue escolher as canetas para o seu desenho, levanta-se e vai ajudá-la.
- O que queres desenhar?
- O meu sonho! - responde a ciganita de olhos negros, cabelos negros entrançados, corpo esguio e desenvolto, sempre preparada para uma corrida. Era raro encontrá-la sentada, ainda para mais com a intenção de desenhar. Quando me encontrou uma vez, na rua, fez questão de me apresentar a todas as senhoras da sua família, que saíram uma após outra das roulottes, curiosas, para conhecerem a estagiária da "escolinha" de Pilastro. Sempre que me perdia naquele bairro, alguma delas acabaria por me encontrar e reconduzir ao sítio certo.
- Qual é o teu sonho, Dhael?
- Fazer uma viagem. Estou a pintar aqui a minha mala. Vai ter muitas coisas! - dizia, com os braços estendidos e os olhos brilhantes.
- E viajas para onde?
- Para o Kosovo.
E aí tinha o mundo todo a brilhar nos olhos, tinha a família que não viera parar a Pilastro, para a qual queria levar uma mala com muitas coisas, sobretudo esparguete.
- Esparguete com um fio de azeite e alho, é o meu prato preferido - responde-lhe Filippo. Os seus olhos de rio continuam a vaguear pela sala. Alguém faz barulho, alguém grita, e Filippo corre ao seu encontro. É Louise, a pequenina loira de olhos azuis, que não quer sair do colo do pai. Agarra-o com força e grita ao ver as educadoras. Filippo aparece de novo ao meu lado, em silêncio, pega na minha mão e conduz-me a Louise. Não precisou de explicar, já o tinha feito com ele: o truque do abraço. Um grandinho põe-se de cócoras à altura de um pequenino, relaxa os braços e respira devagar, criando um abraço calmo. Era o único modo para acalmar o rio turvo dentro de Filippo, e terá pensado que resultaria com Louise. Aceitei o seu convite silencioso.
- Louise, olha quem veio hoje! - disse o pequenito. Ela largou o pai e veio abraçar-me, com muita força, permanecendo ao colo por muito tempo.
- Inês, já disse ao meu pai que hoje à noite temos de ir ao baile! Quero um vestido azul como os meus olhos, com uma saia a rodar muito, e tu também vais bonita!
O pai pouco me conhecia e olhava o chão, algo embaraçado com a fantasia perene de Louise, a menina doce que raramente aterrava na mesma terra da maioria dos colegas. Era das poucas que brincava com Dhael, e só largou o meu colo para aceitar o seu convite e irem brincar para o jardim. Do jardim, Louise gritava:
- Inês, de que cor é o teu vestido para irmos ao baile, hoje? - e acrescentava um sorriso infinito, enquanto descia pelo escorrega.
Só Filippo permanecera na sala. O seu desenho nunca estava perfeito, nunca o dava por terminado. O rio não cabia ali.
Um dia abordou-me, com uma folha e canetas para colorir, pedindo para se sentar à minha beira. Enquanto desenhava ia-me observando (já me observava há cerca de um mês). Verde e castanho, um pouco de azul escuro.
- Posso contar-te uma história?
- Sou toda ouvidos.
- Este é o meu pai, na pesca. Eu e o meu irmão gostávamos muito de ir à pesca com ele. Há dois meses que não o fazemos. O meu pai suicidou-se há dois meses, e faz-me falta. Por isso é que desenho as coisas que gostava de fazer com ele.
Continua compenetrado na sua tarefa, em silêncio. Pouco depois, ao ver que Dhael não consegue escolher as canetas para o seu desenho, levanta-se e vai ajudá-la.
- O que queres desenhar?
- O meu sonho! - responde a ciganita de olhos negros, cabelos negros entrançados, corpo esguio e desenvolto, sempre preparada para uma corrida. Era raro encontrá-la sentada, ainda para mais com a intenção de desenhar. Quando me encontrou uma vez, na rua, fez questão de me apresentar a todas as senhoras da sua família, que saíram uma após outra das roulottes, curiosas, para conhecerem a estagiária da "escolinha" de Pilastro. Sempre que me perdia naquele bairro, alguma delas acabaria por me encontrar e reconduzir ao sítio certo.
- Qual é o teu sonho, Dhael?
- Fazer uma viagem. Estou a pintar aqui a minha mala. Vai ter muitas coisas! - dizia, com os braços estendidos e os olhos brilhantes.
- E viajas para onde?
- Para o Kosovo.
E aí tinha o mundo todo a brilhar nos olhos, tinha a família que não viera parar a Pilastro, para a qual queria levar uma mala com muitas coisas, sobretudo esparguete.
- Esparguete com um fio de azeite e alho, é o meu prato preferido - responde-lhe Filippo. Os seus olhos de rio continuam a vaguear pela sala. Alguém faz barulho, alguém grita, e Filippo corre ao seu encontro. É Louise, a pequenina loira de olhos azuis, que não quer sair do colo do pai. Agarra-o com força e grita ao ver as educadoras. Filippo aparece de novo ao meu lado, em silêncio, pega na minha mão e conduz-me a Louise. Não precisou de explicar, já o tinha feito com ele: o truque do abraço. Um grandinho põe-se de cócoras à altura de um pequenino, relaxa os braços e respira devagar, criando um abraço calmo. Era o único modo para acalmar o rio turvo dentro de Filippo, e terá pensado que resultaria com Louise. Aceitei o seu convite silencioso.
- Louise, olha quem veio hoje! - disse o pequenito. Ela largou o pai e veio abraçar-me, com muita força, permanecendo ao colo por muito tempo.
- Inês, já disse ao meu pai que hoje à noite temos de ir ao baile! Quero um vestido azul como os meus olhos, com uma saia a rodar muito, e tu também vais bonita!
O pai pouco me conhecia e olhava o chão, algo embaraçado com a fantasia perene de Louise, a menina doce que raramente aterrava na mesma terra da maioria dos colegas. Era das poucas que brincava com Dhael, e só largou o meu colo para aceitar o seu convite e irem brincar para o jardim. Do jardim, Louise gritava:
- Inês, de que cor é o teu vestido para irmos ao baile, hoje? - e acrescentava um sorriso infinito, enquanto descia pelo escorrega.
Só Filippo permanecera na sala. O seu desenho nunca estava perfeito, nunca o dava por terminado. O rio não cabia ali.
domingo, abril 15, 2012
Aos ciganos de alma

Gypsy road @ Alentejo/Algarve, (sofrida) Biketour 2004
Quem nos salvar da alma cigana, golpeia a alma. Há quem tenha substância de viagem, por mais que ela doa. E em cada ramo lemos o vento, com o vento continuamos caminho, no silêncio sonhamos o toque meigo que recorda o tempo calmo, no rumor acordamos e continuamos caminho.
Continuamos sempre a caminho. Sou Vieira, peregrina, rumo ao sonho e por vezes abandono-me ao longo da estrada. Depois encontro-me - e continuo o caminho.
sexta-feira, abril 13, 2012
Abraço
Hug. Abbraccio. Étreindre. Umarmen. Alios amplectaris.
Tantas formas diferentes de o dizermos, e potencialmente qualquer um@ o perceberia.
Em dia de nostalgia, é isso que nos ocupa a mente*
domingo, abril 08, 2012
Dia 30: A preto e branco
Via del Pratello, pomeriggio e sera @ Bologna, 2012
Fim do desafio. A preto e branco, que descobri ser o melhor modo para fotografar em dias de neblina ou em horas tardias... A preto e branco, como uma parte da nossa imaginação antiga e doce, em que as cores podem descansar. Se houvesse cores, nestas fotos veríamos entre o amarelo e o vermelho, il rosso della città rossa.
Até breve :)
quinta-feira, abril 05, 2012
Dia 29: Novidade
Caderneta de cromos @ Bologna, 2012
Novidade que já deu para perceber: estou em Bologna. Voltei à minha segunda cidade, nela vou conhecendo algumas pessoas e reencontrando outras. Casa de estudantes, muita coisa que não recordava (e que, no general, não é novidade, mas a agradável surpresa de por vezes ser mais novinha outra vez). Hoje trouxe a prenda de páscoa para o povo todo cá de casa: uma caderneta para colar os cromos da WWF que distribuem gratuitamente no supermercado mais próximo. Fez tanto sucesso que passámos pelo menos uma hora em torno disto, a distribuir autocolantes uns pelos outros, como não fazíamos aí há uns 10-15 aninhos :) Na realidade, alguma coisa é nova? Ou é a vida que nos regala renovadas situações que despoletam um sorriso na alma?
terça-feira, abril 03, 2012
Dia 28: A minha agenda
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